Reinaldo Portanova F°

TIMELINE: Do fonógrafo ao LP, dos telescópios às fitas magnéticas; as guerras que transformaram o mundo; a sociedade, ciência e tecnologia entrelaçadas com a evolução da música gravada; a história da humanidade contada através da evolução do som registrado no cilindro de cera ao disco rigido.

Do Napster ao Renascimento do Cassete

Napster

O Terremoto Napster – 1999-2001

Imagine o mundo em 1999. A internet discada chiava, os computadores eram lentos e um arquivo de MP3 de 3 MB – o tamanho de uma música – demorava quase 14 minutos para ser baixado. Foi nesse mundo que um jovem de 19 anos, Shawn Fanning, largou a faculdade e criou o Napster. O programa permitia que milhões de usuários trocassem músicas entre si, de forma gratuita e ilimitada. Em poucos meses, o Napster tinha 10 milhões de usuários. Qualquer adolescente com um modem e um computador razoável podia ter, de repente, uma discoteca inteira.

As grandes gravadoras não podiam deixar isso passar. Em 7 de dezembro de 1999, a RIAA (Associação da Indústria Fonográfica dos Estados Unidos) processou o Napster por violação de direitos autorais e exigiu uma indenização de US$ 100 milhões. Mas o golpe mais duro – e o mais simbólico – veio de uma banda.

Em 13 de abril de 2000, o Metallica entrou com uma ação judicial contra o Napster. O motivo: uma versão inacabada da música “I Disappear” havia vazado na rede antes mesmo do lançamento oficial. O baterista Lars Ulrich se tornou o rosto da luta antipirataria. O Napster acabou sendo forçado a bloquear o acesso de 335.435 usuários que haviam compartilhado músicas da banda. Em julho de 2001, o Napster foi obrigado a fechar suas portas. O gigante havia caído, mas o compartilhamento de arquivos não morreu. Ele apenas se fragmentou.

 

A Hidra de Lerna – Kazaa, LimeWire, eMule, Soulseek

LimeWire

Com a queda do Napster, os usuários migraram para uma nova geração de programas. O Kazaa (2001), o LimeWire (2000), o eMule (2002) e o Soulseek (2002) eram mais descentralizados e mais difíceis de fechar. Eram como a Hidra de Lerna da mitologia grega: cortava-se uma cabeça, nasciam várias outras. O Kazaa rapidamente superou o Napster em número de downloads, e o Soulseek se tornou um paraíso para colecionadores de discografias completas e raridades da música independente. A pirataria digital não era mais uma moda passageira; era um hábito enraizado na juventude do novo século.

 

O BitTorrent e a Pirataria como Ecossistema – 2001

BitTorrent

Em 2 de julho de 2001, um programador chamado Bram Cohen postou uma mensagem em um grupo do Yahoo! chamado “decentralization”. Ele apresentava ao mundo o BitTorrent, um protocolo que dividia arquivos em milhares de pequenos pedaços e os distribuía entre os usuários. Em vez de baixar um arquivo inteiro de uma única fonte (como no Napster), você baixava pedaços de dezenas de pessoas ao mesmo tempo. Era muito mais rápido, mais resistente a quedas e, crucialmente, não dependia de um servidor central que pudesse ser fechado.

Cohen escreveu o primeiro cliente BitTorrent em Python e o lançou gratuitamente. Em 2004, fundou a empresa BitTorrent Inc. O protocolo se tornou a espinha dorsal de sites como o The Pirate Bay (fundado em 2003), onde era possível baixar discografias inteiras de bandas clássicas, filmes, séries e programas de TV. O BitTorrent não era apenas uma ferramenta de pirataria – era uma revolução na forma como a informação se movia pelo mundo.

 

O Fim do CD e o Nascimento do Streaming – 2003-2008

Spotify

Enquanto a pirataria explodia, a indústria fonográfica sangrava. As vendas de CDs despencaram globalmente. Grandes redes de lojas, como a britânica HMV, fecharam as portas. A RIAA tentou uma estratégia desesperada: processar usuários domésticos. Milhares de pessoas comuns – incluindo crianças e idosos – foram processadas por baixar músicas ilegalmente. Mas a estratégia fracassou.

A salvação veio de um lugar inesperado. Em 28 de abril de 2003, a Apple lançou a iTunes Store, oferecendo músicas a US$0,99 cada. Pela primeira vez, o download pago era mais fácil e seguro do que a pirataria. Em 2008, o Spotify foi lançado na Suécia, inaugurando a era do streaming.

 

O Retorno da Fita Cassete – 2010-2011

Mas a história da fita magnética não terminou nos anos 1990. Enquanto o mundo corria para o streaming, um movimento silencioso começou a crescer no subsolo da cultura: o retorno da fita cassete.

Em 2010, o evento Cassette Store Day foi realizado pela primeira vez. Artistas de peso como Lady Gaga, Daft Punk e Beck lançaram álbuns em K7. Selos independentes começaram a produzir fitas em pequenas tiragens, com capas artesanais e cores vibrantes. Por quê? Porque a fita cassete oferecia algo que o streaming não podia dar: tangibilidade, nostalgia e a possibilidade de gravar. Uma mixtape feita à mão, com carinho, com uma seleção de músicas gravadas do rádio ou de discos, era uma declaração de afeto que uma playlist do Spotify jamais poderia igualar.

Em 2011, a imprensa já falava abertamente do “renascimento da fita cassete”. Reportagens da BBC e do The Guardian notavam que as vendas de fitas, embora minúsculas em comparação ao streaming, cresciam ano a ano. O fotógrafo alemão Martin Beyer, conhecido como “Mr. Tape”, passou a documentar a cultura das mixtapes com seu projeto fotográfico, e em 2011 expôs suas imagens no festival South by Southwest, no Texas. A mesma fita que Fritz Pfleumer inventara em 1928, que Lou Ottens miniaturizara em 1963 e que milhões de pessoas usaram para gravar suas músicas favoritas, estava de volta – não como uma necessidade tecnológica, mas como um objeto de culto.

 

 


 

 

Daft Punk, 2010

Da fita cassete, a velha K7, renascendo das cinzas do mundo digital. A mesma fita que cabia no bolso, que podia ser consertada com uma caneta BIC, que gravava as músicas prediletas do rádio e que resistiu ao CD, ao MP3, ao Napster e ao streaming. Ela não morreu. Apenas esperou, pacientemente, a hora de voltar. Porque, no fundo, a fita magnética é a prova de que, por mais que a tecnologia avance, o desejo humano de registrar o tempo – seja em sulcos de cera, em partículas de ferro ou em bits de silício – permanece o mesmo.

O cilindro de cera de Thomas Edison, a fita cassete de Lou Ottens e o streaming do Spotify são elos de uma mesma corrente.

É a história de uma geração que se manteve fiel ao álbum físico – não importa o formato – enquanto o mundo corria para o streaming; de como o vinil renasceu, de como o cassete voltou à cena, de como os colecionadores se conectaram globalmente pelo Discogs e de como, no Brasil, um governo progressista apostou na cultura e na tecnologia como ferramentas de transformação.

 

 

 


 

Do Napster ao Renascimento do Cassete

 

Na tabela existem algumas ‘lacunas’ tecnologicas, no entanto é um período em que todas as atenções estavam focadas na possibilidade de que além de estarem conectadas, o telespectador passa a ser o protagonista (as lives). Inicialmente vamos recordar alguns acontecimentos anteriores que tiveram seus reflexos na propagação da música registrada em dados até a chegada da segunda década deste século.

 

Ano Evento Impacto na Indústria e na Cultura
Junho de 1999 Shawn Fanning, um universitário de 19 anos, lança o Napster, o primeiro grande serviço de compartilhamento P2P de arquivos de música. Em poucos meses, o Napster atinge milhões de usuários. O MP3 se torna a moeda corrente da música digital. As gravadoras entram em pânico.
13 de abril de 2000 O Metallica processa o Napster por violação de direitos autorais, após descobrir que uma versão demo de “I Disappear” circulava antes do lançamento oficial. O Napster é forçado a bloquear 335 mil usuários. O caso abre um debate global sobre pirataria digital e direitos autorais.
Julho de 2001 O Napster é forçado a fechar suas portas após uma série de derrotas judiciais. O Napster original morre, mas o compartilhamento de arquivos não. Ele apenas se fragmenta em novas redes: Kazaa (2001), LimeWire (2000), eMule (2002), Soulseek, etc.
2 de julho de 2001 O programador Bram Cohen revela ao mundo o BitTorrent, um novo protocolo de compartilhamento descentralizado. O BitTorrent revoluciona a distribuição de arquivos grandes. Em 2004, Cohen funda a BitTorrent Inc. O protocolo se torna o padrão para pirataria de filmes, séries e discografias inteiras.
2000-2003 As vendas de CDs despencam globalmente. Grandes lojas fecham as portas. A indústria fonográfica contrai-se. A RIAA inicia uma campanha de processos contra usuários domésticos, mas a pirataria continua a crescer.
2004-2008 Surgem os primeiros serviços legais de venda de música digital: iTunes Store (2003) e, posteriormente, o Spotify (2008). A indústria começa a se adaptar. O download pago e o streaming substituem o modelo de venda de discos físicos.
2010-2011 Ressurgimento da fita cassete. O evento Cassette Store Day é realizado pela primeira vez, e artistas de peso como Lady Gaga e Daft Punk lançam álbuns em K7. A fita cassete, que parecia extinta, retorna como objeto de culto, nostalgia e resistência ao digital. A mixtape sobrevive, agora como símbolo de uma era.

 

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