Reinaldo Portanova F°

TIMELINE: Do fonógrafo ao LP, dos telescópios às fitas magnéticas; as guerras que transformaram o mundo; a sociedade, ciência e tecnologia entrelaçadas com a evolução da música gravada; a história da humanidade contada através da evolução do som registrado no cilindro de cera ao disco rigido.

Do Colecionismo ao Streaming

As Lojas Fecham, os Colecionadores Resistem
2004 a 2010

Toca do Disco

No início dos anos 2000, as grandes redes de lojas de discos estavam em colapso. Nos Estados Unidos, a icônica Tower Records – que já havia faturado US$ 1 bilhão – fechou sua última loja americana em 22 de dezembro de 2006. No Brasil, a Modern Sound, tradicional loja de Copacabana que existia havia 44 anos, fechou as portas em 2010. Seu proprietário, Pedro Passos, atribuiu o fim à internet, que descreveu como “uma ferramenta da maldade”. No mesmo ano, o faturamento da loja era um terço do que havia sido em 2000.

Mas, enquanto as grandes redes caíam, um movimento silencioso crescia. A mesma geração que um dia colecionava fitas cassetes gravadas agora tinha melhor poder aquisitivo e podia adquirir os itens que não conseguira décadas atrás. O comércio de usados se proliferava em feiras, sebos e, cada vez mais, na internet. O vinil, que muitos consideravam morto, começou a dar sinais de vida. Após 17 anos de vendas em queda, em 2007 o vinil iniciou sua trajetória de recuperação. Em 2008, as vendas já haviam aumentado 223% em relação ao fundo do poço.

 

O Discogs e a Conexão Global dos Colecionadores
2000 a 2020

Um dos grandes responsáveis por essa revolução silenciosa foi uma plataforma criada por um programador e DJ de Portland, Oregon. Em novembro de 2000, Kevin Lewandowski lançou o Discogs – abreviação de “discographies” – inicialmente como um hobby para catalogar sua coleção de música eletrônica. Mas o site cresceu de forma exponencial. Em 2005, Lewandowski adicionou um marketplace, transformando o Discogs no maior mercado global de discos usados do planeta.

O Discogs não se restringe a ser um banco de dados: ele reúne colecionadores de todo o mundo, permitindo que um raro LP de bossa nova prensado no Brasil em 1964 seja encontrado por um colecionador no Japão. Em 2015, o marketplace atingiu 3 milhões de usuários registrados, 20 milhões de visitas mensais e um volume de vendas de mais de US$ 95 milhões. Em 2020, a base de dados já ultrapassa 13 milhões de registros e 7 milhões de artistas.

 

As Plataformas que Alimentaram o Futuro
2004 a 2008

Beatport 1.0

Paralelamente ao comércio de usados, uma nova geração de plataformas digitais começou a surgir – não para substituir o físico, mas para alimentá-lo. Em 7 de janeiro de 2004, foi lançado o Beatport 1.0, uma loja online especializada em música eletrônica, com 79 selos em seu catálogo inicial. Em 14 de fevereiro de 2005, três ex-funcionários do PayPal – Chad Hurley, Steve Chen e Jawed Karim – fundaram o YouTube. O primeiro vídeo, “Me at the zoo”, foi ao ar em 23 de abril de 2005. Artistas independentes descobriram no YouTube uma vitrine global para divulgar seu trabalho.

Em 27 de agosto de 2007, os suecos Alexander Ljung e Eric Wahlforss fundaram o SoundCloud em Berlim. A plataforma permitia que músicos compartilhassem suas gravações diretamente com o público, sem intermediários. Em 2008, Ethan Diamond e Shawn Grunberger fundaram o Bandcamp, um marketplace “direto-para-o-artista” que se tornaria uma tábua de salvação para músicos independentes em todo o mundo. Até 2019, o Bandcamp já havia repassado US$ 270 milhões aos artistas.

Essas plataformas – YouTube, Beatport, SoundCloud, Bandcamp – não competiam com o vinil ou o cassete. Elas os alimentavam. Um artista independente divulgava seu trabalho no SoundCloud, vendia o álbum físico no Bandcamp e mantinha seu catálogo catalogado no Discogs. O digital e o físico não eram inimigos: eram aliados.

 

O Brasil Progressista e a Cultura Plural
2003 a 2010

Lula e FHC

No Brasil, o período de 2003 a 2010 foi marcado por um governo que tratou a cultura como política de Estado. Em 2003, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva nomeou Gilberto Gil como ministro da Cultura. A gestão de Gil – e de seu sucessor, Juca Ferreira – implementou programas que priorizavam a pluralidade e o acesso à cultura em todas as regiões do país.

O programa mais emblemático foi o Cultura Viva, criado em 2004, que deu origem aos Pontos de Cultura. A proposta era inovadora: em vez de levar cultura “de cima para baixo”, o Ministério identificava iniciativas culturais já existentes nas comunidades e as fortalecia com recursos e equipamentos. Até 2010, mais de 9 milhões de brasileiros haviam sido beneficiados por essa política. Gilberto Gil definiu sua missão com uma frase que se tornou célebre: “O Ministério da Cultura não deve ser uma trincheira, deve ser uma praça.”

Paralelamente, o governo Lula investiu pesadamente em inclusão digital. Em fevereiro de 2007, o governo federal contabilizou 23 ações de inclusão digital, em parceria com ministérios, levando acesso à internet a escolas, telecentros e comunidades. Em 2010, foi lançado o Plano Nacional de Banda Larga, com o objetivo de massificar o acesso à internet de alta velocidade no país.

 

O Renascimento do Vinil e a Volta do Cassete
2007 a 2020

Foi nesse ambiente de políticas públicas, plataformas digitais e conexão global que o álbum físico iniciou sua volta por cima. O vinil, que parecia condenado à extinção, renasceu.

Em 2007, foi criado o Record Store Day, um evento anual para celebrar as lojas de discos independentes, com edições limitadas que atraíam colecionadores.

Em 2015, as vendas de vinil nos EUA alcançaram US$ 416 milhões – superando a receita de todos os serviços de streaming com anúncios combinados. Era a primeira vez, desde 1988, que o vinil gerava tanta receita.

Após tocar o fundo do poço em 2010 – com apenas 21 mil unidades vendidas nos EUA -, ele iniciou uma lenta mas constante recuperação. Em 2015, as vendas subiram para 81 mil unidades. Em 2020, nos primeiros seis meses do ano, as vendas de cassete mais que dobraram em relação a 2018.

Selos independentes passaram a produzir fitas em tiragens limitadas, com capas artesanais e fitas coloridas. A fita cassete não era mais uma necessidade tecnológica – era um objeto de culto.

 

O Mercado de Usados e o Colecionismo
2010 a 2020

No Brasil, enquanto a Modern Sound fechava em Copacabana, novas lojas independentes surgiam.

Em janeiro de 2011, a Locomotiva Discos abria as portas em São Paulo com um acervo de 10 mil discos, rapidamente se tornando referência.

A Baratos Afins, fundada por Luiz Calanca em 1978 na Galeria do Rock, resistia e em 2018 celebrava 40 anos de existência com um festival. O Record Store Day, que no Brasil ganhou força a partir de 2011, mobilizava colecionadores em busca de edições limitadas.

O consumidor que um dia gravava mixtapes agora tinha poder aquisitivo para comprar os discos que não pudera adquirir na juventude.

O mercado de usados se profissionalizou: o Discogs conectava colecionadores brasileiros a vendedores na Europa e no Japão; grupos de Facebook e WhatsApp organizavam feiras e trocas; lojas como a Locomotiva e a Baratos Afins se mantinham lançando discos de vinil.

Baratos Afins

A morte do álbum físico foi anunciada muitas vezes, mas ele continua entre nós. O vinil renasceu. O cassete voltou. O CD resiste. E o colecionador – seja ele um jovem da Geração Z descobrindo o ritual de colocar uma agulha no sulco, seja um veterano completando sua coleção de bossa nova – mantém viva a chama que Thomas Edison acendeu em 1877.

A tecnologia mudou, mas o desejo humano de possuir, tocar e colecionar música permanece o mesmo. Da cera ao vinil, do vinil ao MP3, do MP3 ao streaming, e do streaming de volta ao vinil: a história da música gravada é, acima de tudo, uma história de eterno retorno.

Do cilindro de cera de Thomas Edison, em 1877, ao streaming do Spotify, passando pelas guerras mundiais, pela revolução do vinil, pela fita cassete e pelo CD. Mas a história não termina no ano 2000. Os anos que antecederam 2020 foram de uma aceleração tecnológica jamais vista pela humanidade – e também de uma ruptura profunda.

A COVID-19 marcou o mundo com a mesma brutalidade com que as duas grandes guerras o fizeram após a Revolução Industrial. E, no meio desse turbilhão, o colecionismo de discos, CDs, DVDs e fitas cassetes não apenas sobreviveu – ele renasceu.

 


Do Colecionismo ao Streaming

A Resistência do Físico

2004-2020

Ano 🌐 Plataformas e Tecnologia 💿 Formatos Físicos e Mercado 🇧🇷 Brasil: Políticas e Cultura
2004 Beatport 1.0 é lançado em 7 de janeiro com 79 selos; estreia do Orkut Criação do programa Cultura Viva e dos Pontos de Cultura pelo MinC
2005 YouTube é fundado em 14 de fevereiro; Discogs lança seu marketplace Início da retomada do vinil (primeiro crescimento após 17 anos de queda)
2006 Tower Records fecha sua última loja nos EUA em 22 de dezembro
2007 SoundCloud é fundado em 27 de agosto em Berlim; Record Store Day é criado Vendas de vinil aceleram; colecionadores migram para marketplaces online Governo federal contabiliza 23 ações de inclusão digital
2008 Bandcamp é fundado; Spotify é lançado na Suécia Cassete atinge seu fundo do poço (82 mil unidades vendidas nos EUA)
2010 Fundo do poço do cassete (21 mil unidades nos EUA); Modern Sound fecha as portas no Rio de Janeiro Lançamento do Plano Nacional de Banda Larga
2011 Locomotiva Discos é aberta em São Paulo; Record Store Day se consolida no Brasil
2015 Receita do vinil supera a de streaming com anúncios nos EUA; cassete inicia recuperação (81 mil unidades)
2020 Pandemia de covid-19 impulsiona a digitalização Vendas de cassete mais que dobram em relação a 2018; Discogs ultrapassa 13 milhões de registros e 7 milhões de artistas

 

 

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