Reinaldo Portanova F°

TIMELINE: Do fonógrafo ao LP, dos telescópios às fitas magnéticas; as guerras que transformaram o mundo; a sociedade, ciência e tecnologia entrelaçadas com a evolução da música gravada; a história da humanidade contada através da evolução do som registrado no cilindro de cera ao disco rigido.

As Guerras, os discos, a fita magnética e as Galáxias

1900 – 1914: O choque de realidade

Belle Époque

Saímos do século XIX com a sensação de que o progresso era um trem sem freios. Luz elétrica, telefone, cinema. A Belle Époque acreditava que a razão e a ciência estavam nos levando a um mundo pacífico e iluminado. Mas, como a história nos mostra, o trem descarrilou. E a segunda tabela começa com um choque brutal.

1914-1918: A guerra que apagou as luzes

Aquela Europa orgulhosa da Torre Eiffel, do telefone e do gramofone, usou toda a sua tecnologia de ponta para se destruir. Aviões, tanques, metralhadoras, gás venenoso. A Primeira Guerra Mundial não foi apenas um conflito. Foi o fim de uma visão de mundo. A Belle Époque morreu nas trincheiras. Dez milhões de soldados mortos. Um continente em ruínas.

Mas as sociedades continuam. E a ciência também. É exatamente nesse mundo ferido, nos anos 1920, que um homem num telescópio no alto de uma montanha na Califórnia vai nos dar uma nova ferida narcísica – ou talvez um novo horizonte.

1924: A descoberta que nos diminui para nos engrandecer

Até 1924, a astronomia discutia o tamanho do universo. Muitos acreditavam que a nossa Via Láctea era tudo o que existia – o universo inteiro. E que aquela manchinha difusa no céu, a Nebulosa de Andrômeda, era só um redemoinho de gás dentro da nossa “casa”.

Fritz Pfleumer

Edwin Hubble, usando o maior telescópio do mundo na época, conseguiu medir a distância de Andrômeda. Ele identificou um tipo especial de estrela, a Cefeida, que funciona como uma vela-padrão cósmica. O resultado foi assombroso. Andrômeda não estava dentro da Via Láctea. Estava a quase um milhão de anos-luz de distância. Ela não era uma nebulosa. Era outra ilha de bilhões de estrelas. Era a Galáxia de Andrômeda.

Imaginem o impacto psicológico dessa descoberta. De repente, o nosso universo – que era a Via Láctea inteira – se transformou em apenas uma galáxia entre incontáveis outras. O ser humano, que Copérnico já havia tirado do centro do sistema solar, agora era um grão de areia num oceano cósmico cujo tamanho acabávamos apenas de começar a vislumbrar. O fantástico disso é que, em vez de nos desesperamos, abraçamos essa vastidão. Ela expandiu também a nossa imaginação.

Em 1929, Hubble completa seu trabalho: não só o universo é gigantesco, como ele está em expansão. As galáxias estão se afastando umas das outras. Ali está a semente da teoria do Big Bang. O mundo, em paralelo a essa descoberta, vivia outra expansão dolorosa – a Grande Depressão de 1929, com a quebra da Bolsa de Nova York, mergulhando o planeta numa crise econômica devastadora.

1935 – 1940: A revolução que veio da fita

Enquanto o mundo lidava com crises políticas que levariam ao nazismo e ao fascismo, uma invenção crucial estava silenciosamente amadurecendo na Alemanha. Em 1935, a empresa AEG apresenta o Magnetophon. É o primeiro aparelho de fita magnética: uma fita plástica coberta de partículas de óxido de ferro que podem ser magnetizadas para gravar som. Mas a qualidade inicial era ruim, cheia de chiado como uma televisão fora de sintonia.

E aqui entra o acaso, o insight científico. Por volta de 1940, engenheiros alemães descobrem o “AC bias” – uma corrente de alta frequência que, aplicada durante a gravação, elimina quase todo o ruído. De repente, uma fita magnética soava mais limpa e mais fiel do que qualquer disco de 78 RPM. A segunda guerra já estava a todo vapor. Hitler usava os Magnetophons aperfeiçoados para gravar discursos e transmiti-los em diferentes rádios, dando a impressão de que estava em vários lugares ao mesmo tempo. A propaganda nazista foi, em parte, um show tecnológico assustador.

1939 – 1945: A Segunda Guerra e a herança amarga

Bing Crosby 1954

A Segunda Guerra Mundial foi o ápice da barbárie e da inovação forçada. Aviões a jato, os mísseis V-2 (que depois levariam o homem ao espaço), a fissão nuclear. O mundo viu o horror dos campos de concentração e o clarão atômico sobre Hiroshima e Nagasaki.

1947 – 1948: O som da paz e o Long-Play

Com o fim da guerra, um oficial americano chamado Jack Mullin encontrou os Magnetophons alemães e os levou para os Estados Unidos. Ele mostrou a tecnologia para a empresa Ampex e para um cantor e ator que era o maior astro do rádio na época: Bing Crosby.

Crosby odiava ter que cantar ao vivo duas vezes para alcançar os diferentes fusos horários do país. Ele viu na fita magnética a chance de gravar seu show uma única vez, com qualidade perfeita, e depois apenas mandar para as rádios. Ele investiu uma pequena fortuna na Ampex. Esse investimento foi a faísca que transformou o estúdio de gravação moderno. Com a fita, você podia cortar trechos, emendar partes, regravar encaixes. O disco de cera para gravação morreu ali.

Com essa nova ferramenta nas mãos, a Columbia Records fez a pergunta final: “Agora que podemos gravar e editar com uma fita magnética de alta qualidade e longa duração, por que o disco do consumidor ainda dura só 4 minutos por lado?”.

A resposta veio em 21 de junho de 1948. A Columbia apresentou ao mundo o LP de vinil de 33⅓ RPM. Doze polegadas de diâmetro, microsulcos quase invisíveis, e uma capacidade revolucionária: até 23 minutos de música por lado. A experiência musical mudou. Você não comprava mais uma “música” em um disco frágil de 78 RPM. Você comprava um álbum. Uma coleção de canções. Uma obra pensada para ser ouvida em sequência.

 

1949: A nova geração olha para as estrelas

E nesse mesmo momento em que o som ganha nova dimensão dentro das casas, uma jovem cientista dava o próximo passo para desvendar o cosmos. Em 1949, Nancy Grace Roman conquistou seu doutorado em Astronomia. Ela estudou a composição química e o movimento das estrelas.

 

Guardem bem esse nome. Décadas depois, na NASA, essa mulher seria aclamada como a “Mãe do Telescópio Espacial Hubble”. Ela lutou por décadas para convencer o governo e a comunidade científica de que valia a pena construir um telescópio no espaço, acima da distorção da atmosfera.

O seu trabalho é a ponte entre Edwin Hubble – o homem que nos mostrou as galáxias – e o telescópio que hoje nos revela, com uma nitidez de tirar o fôlego, a beleza da Galáxia de Andrômeda e de bilhões de outras.


 

As Guerras, as Galáxias, o Long-Play e a fita magnética.

1914-1950

 

Ano 🌐 Sociedade & Poder ⚙️ Tecnologia & Som 🔭 Ciência & Cosmos
1914-1918 Primeira Guerra Mundial.
Fim da Belle Époque.
1924 Edwin Hubble prova que a Nebulosa de Andrômeda é, na verdade, a Galáxia de Andrômeda. O universo fica bilhões de vezes maior.
1929 Crise da Bolsa de Nova York
A Grande Depressão.
Hubble anuncia a expansão do universo (base do Big Bang).
1935 O Magnetophon – primeiro gravador de fita magnética – é criado na Alemanha.
1940 Descoberto o “AC bias” que dá à fita magnética qualidade de som excepcional.
1939-1945 Segunda Guerra Mundial.
Hiroshima e Nagasaki.
A guerra impulsiona o aperfeiçoamento da fita magnética e das comunicações.
1947 Cantor Bing Crosby investe nos gravadores de fita Ampex, transformando o rádio e o estúdio.
1948 21 de junho: Columbia lança o LP de vinil de 33⅓ RPM. Nasce o álbum musical.
1949 Nancy Grace Roman obtém doutorado em Astronomia. Seu trabalho será fundamental para criar o Telescópio Espacial Hubble.

 

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