Reinaldo Portanova F°

TIMELINE: Do fonógrafo ao LP, dos telescópios às fitas magnéticas; as guerras que transformaram o mundo; a sociedade, ciência e tecnologia entrelaçadas com a evolução da música gravada; a história da humanidade contada através da evolução do som registrado no cilindro de cera ao disco rigido.

A Evolução da Fita Magnética

Do Aço ao Cassete

Do banho de prata no disco de laca ao esmagamento do vinil sob 100 toneladas, cada etapa era essencial para que a música de Caruso, Sinatra, Pink Floyd ou Elis Regina chegasse aos nossos ouvidos com a máxima fidelidade possível.

Mas a fita magnética mudou completamente essa lógica. Em vez de sulcos, partículas magnéticas. Em vez de uma agulha, campos eletromagnéticos.

Aqui vamos conhecer a história da fita magnética – a tecnologia que revolucionou os estúdios, entrou nos carros, coube nos bolsos e preparou o terreno para toda a revolução digital que viria

A espessura total da fita também evoluiu: as primeiras fitas da BASF tinham base de 30 µm + camada magnética de 20 µm = 50 µm. Com o tempo, fitas mais finas permitiram maior duração (C-90, C-120).

 

O Cartucho 8-Track – A Trilha Sonora da Estrada

Os gravadores de rolo (reel-to-reel) que dominaram os estúdios nos anos 1950 eram excelentes, mas nada práticos para o uso doméstico. Você precisava enfiar a fita manualmente por cabeçotes e carretéis. O consumidor comum queria algo simples: inserir o cartucho e apertar play.

Os precursores do cartucho foram o Fidelipac (inventado por George Eash em 1953, usado por rádios) e o Stereo-Pak de 4 pistas (lançado por Earl “Madman” Muntz em 1962). Mas o grande sucesso comercial foi o Stereo 8, popularmente conhecido como cartucho 8-track.

O design do cartucho foi criado por Richard Kraus em 1963, sob a liderança de William Powell Lear (o inventor do Learjet). Kraus reduziu a complexidade mecânica ao incorporar o rolete de pressão de neoprene e náilon dentro do próprio cartucho. Um consórcio formado por Lear Industries, Ampex, Ford, General Motors, Motorola e RCA Victor lançou o formato em setembro de 1965.

A grande sacada do 8-track era a fita em loop contínuo, dividida em 8 trilhas (4 programas estéreo). Você não precisava rebobinar: a fita simplesmente rodava para sempre. A fita usada nos cartuchos era de poliéster com revestimento de γ-Fe₂O₃, a mesma composição básica das fitas de rolo, mas acondicionada num estojo plástico selado.

Em setembro de 1965, a Ford passou a oferecer toca-fitas 8-track de fábrica em todos os modelos 1966 (Mustang, Thunderbird e Lincoln). A RCA lançou 175 cartuchos Stereo-8 de uma só vez. Em 1967, a Ford oferecia 8-track em todos os seus modelos. O 8-track dominou o mercado automotivo e doméstico americano até meados dos anos 1970, mas seus problemas crônicos – desgaste da fita em loop, ressecamento dos roletes, interrupção das músicas na troca de programa – acabaram por condená-lo quando a fita cassete se popularizou.

 

A Fita Cassete – A Música no Bolso

Enquanto o 8-track dominava as estradas americanas, uma revolução silenciosa acontecia na Europa. Em 28 de agosto de 1963, na Exposição de Rádio de Berlim (a mesma que apresentara o Magnetophon 28 anos antes), a empresa holandesa Philips apresentou a Compact Cassette. O inventor foi Lou Ottens (1926-2021), engenheiro-chefe da divisão de áudio da Philips na fábrica de Hasselt, Bélgica.

Ottens supervisionou o desenvolvimento do estojo de dois carretéis (two-spool cartridge), com fita de 3,81 mm de largura (exatamente 0,15 polegada). A velocidade de rotação foi padronizada em 1⅞ polegadas por segundo (4,76 cm/s). A título de comparação, os gravadores de rolo profissionais usavam velocidades de 7½ ou 15 polegadas por segundo – ou seja, a cassete era significativamente mais lenta e, portanto, tinha qualidade sonora inferior. Mas a contrapartida era a portabilidade.

O primeiro aparelho foi o Philips EL3300, um gravador transistorizado alimentado por pilhas de 1,5V. Ele foi projetado para ditafones – gravação de voz, não de música. A qualidade sonora era modesta: resposta de frequência até cerca de 10 kHz. Nada de alta fidelidade. Mas a simplicidade do formato – inserir o cassete e apertar play – era revolucionária.

Em 1964, a Philips tomou uma decisão estratégica que mudaria a história da música: licenciou gratuitamente o padrão da cassete compacta para qualquer fabricante que quisesse produzi-la. Isso incluía as especificações de polarização (bias), equalização (EQ), resposta de frequência, largura da fita e entreferro da cabeça. Em poucos anos, mais de 85 fabricantes estavam produzindo toca-fitas cassete.

Em 1965, a Philips lançou as Musicassettes – fitas cassete com música pré-gravada. No mesmo ano, a Ray Dolby introduziu o sistema Dolby B de redução de ruído, que se tornaria padrão nos decks cassete a partir do final dos anos 1960, melhorando drasticamente a relação sinal-ruído. Em 1966, os primeiros decks cassete estéreo chegaram ao mercado.

 

A Fita Tipo I – “Normal” ou Fita Férrica

Vamos agora focar no tipo de fita que o usuário comum usava – a popular “fita normal”, tecnicamente classificada como Tipo I ou IEC I.

As fitas Tipo I foram historicamente as primeiras, as mais comuns e as mais baratas. Elas dominaram o mercado de cassetes pré-gravados. A composição é essencialmente a mesma que já descrevemos:

  • Substrato: filme de poliéster (PET).
  • Partículas magnéticas: γ-Fe₂O₃ acicular (partículas em forma de agulha, com comprimento entre 0,2 µm e 0,75 µm).
  • Aglutinante (binder): polímero sintético, cerca de 30% da camada magnética.
  • Cor: marrom-avermelhada, característica do óxido férrico. A tonalidade exata depende do tamanho das partículas.

 

As fitas Tipo I devem ser gravadas com polarização normal (normal bias) e reproduzidas com uma constante de tempo de 120 µs. A resposta de frequência típica de uma fita Tipo I de qualidade razoável nos anos 1970 ia de 30 Hz a cerca de 14-16 kHz.

Ao longo dos anos, a tecnologia das fitas férricas evoluiu continuamente, com novas gerações surgindo aproximadamente a cada cinco anos:

 

  • Fitas básicas de grão grosso: as mais baratas, usadas para gravação de voz.
  • Fitas microféricas avançadas: partículas menores e mais uniformes, melhor resposta de frequência.
  • Fitas Ferricobalt (Super Ferric): partículas de óxido férrico encapsuladas numa fina camada de composto de cobalto-ferrita (processo de adsorção de cobalto), desenvolvidas no final dos anos 1970. Apesar de ainda classificadas como Tipo I, seu desempenho se aproximava das fitas Tipo IV (Metal).

 

As especificações oficiais dos tipos de fita (I, II, III e IV) foram padronizadas pela International Electrotechnical Commission (IEC) em 1979 – o que significa que durante toda a década de 1970, os consumidores e fabricantes lidavam com uma variedade de formulações nem sempre compatíveis entre si.

 

A Consolidação do Cassete nos Anos 1970

A fita cassete demorou a conquistar o mercado de alta fidelidade. Nos primeiros anos, a qualidade sonora era francamente inferior à dos discos de vinil e dos gravadores de rolo. Mas três desenvolvimentos paralelos mudaram esse cenário ao longo dos anos 1970:

 

  1. Melhorias na formulação da fita: As fitas de óxido de cromo (CrO₂), desenvolvidas pela DuPont no final dos anos 1960 e lançadas comercialmente pela BASF, ofereciam menor ruído e maior resposta em altas frequências. No entanto, exigiam um bias diferente (alto) e equalização de 70 µs, o que levou à criação da categoria Tipo II. Mais tarde, surgiriam as fitas de Tipo IV (Metal), com partículas de ferro puro.
  2. Redução de ruído Dolby: O Dolby B, introduzido em 1968, tornou-se padrão na maioria dos decks cassete domésticos. Ele reduzia o chiado de fundo em cerca de 10 dB nas altas frequências.
  3. Portabilidade total – o Walkman: Em 1º de julho de 1979, a Sony lançou o Walkman TPS-L2, um tocador de fita cassete portátil. A música se tornou verdadeiramente nômade. Você podia ouvir seu álbum favorito caminhando, correndo, no ônibus. O Walkman vendeu mais de 400 milhões de unidades ao longo de sua história e transformou a fita cassete no formato dominante dos anos 1980.

 

A convergência desses fatores – fitas de melhor qualidade, redução de ruído e portabilidade total – fez da fita cassete o formato de áudio mais popular do mundo entre o final dos anos 1970 e o início dos anos 1990.

 


Cronologia (até a Type I) 1898-1979

Fase Período Tecnologia Composição da Fita Uso Principal
Precursores 1898-1927 Telegraphone (fio de aço) Fio ou fita de aço sólido Ditafone, gravação experimental
Invenção da Fita Magnética 1928-1932 Patente de Fritz Pfleumer; Magnetophon K1 (AEG) Papel + pó de ferro carbonilo → acetato de celulose + ferro carbonilo Protótipos; feira de rádio de Berlim 1935
Consolidação do Reel-to-Reel 1935-1947 Magnetophon K4; Ampex Model 200 (EUA) PVC + óxido férrico gama (γ-Fe₂O₃) Rádio, estúdios profissionais (Bing Crosby, 1947)
Cartucho 8-Track 1965-1975 Stereo 8 (Lear/Ampex/Ford/RCA) Poliéster + γ-Fe₂O₃ Automóveis (Ford 1966), uso doméstico
Fita Cassete (Normal) 1963-1979 Compact Cassette (Philips) Poliéster + γ-Fe₂O₃ (Tipo I “Normal”) Portabilidade, gravação doméstica; consolidação com o Walkman (1979)

 

A jornada da fita magnética é, em muitos sentidos, a jornada da própria música no século XX.

Das tiras de papel com pó de aço de Pfleumer ao Walkman de 1979, passando pelos estúdios de Bing Crosby e pelos automóveis americanos com 8-track, a fita magnética democratizou a gravação e a reprodução do som como nenhuma tecnologia anterior.

A composição básica – partículas de γ-Fe₂O₃ dispersas num aglutinante sobre uma base de poliéster – permaneceu essencialmente a mesma por décadas, refinada geração após geração. A fita cassete “Normal” (Tipo I) foi a porta de entrada de milhões de pessoas para o mundo da música portátil e da gravação doméstica.

E a grande lição que fica é esta: por trás de cada formato que estudamos – do cilindro de cera ao MP3 – há uma história de inovação, de tentativa e erro, de artistas que abraçaram a tecnologia e de consumidores que mudaram seus hábitos. A tecnologia molda a música. E a música, por sua vez, molda a tecnologia.

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