Reinaldo Portanova F°

TIMELINE: Do fonógrafo ao LP, dos telescópios às fitas magnéticas; as guerras que transformaram o mundo; a sociedade, ciência e tecnologia entrelaçadas com a evolução da música gravada; a história da humanidade contada através da evolução do som registrado no cilindro de cera ao disco rigido.

Os Materiais que Deram Forma à Música (1877–1950)

Cera, Goma-Laca e Vinil: A incrível jornada dos materiais – da cera à goma-laca, e da goma-laca ao vinil.

Os Materiais que Deram Forma à Música [1877-1950]

Uma jornada que vai nos levar das profundezas de uma floresta na Índia até os laboratórios da guerra.

 

 

A Cera – O Som Efêmero

Comecemos em 1877. Thomas Edison acaba de inventar o fonógrafo. Mas ele não está satisfeito com a folha de estanho do primeiro protótipo, que mal aguentava algumas reproduções. Era preciso um material mais macio para a agulha gravar, mas que fosse minimamente durável.

A solução, aprimorada por Alexander Graham Bell e depois pelo próprio Edison, foi a cera. Mas não era qualquer cera, como a de uma vela comum. Era uma fórmula química bastante precisa. Os cilindros de cera marrom, que se tornaram o primeiro formato comercial de música gravada, tinham uma composição dominada pelo ácido esteárico (cerca de 48%), misturado com estearato de sódio, estearato de alumínio e ceresina.

Esses cilindros eram, ao mesmo tempo, maravilhosos e limitados. Eles traziam a magia da voz humana saindo de uma máquina, algo que parecia sobrenatural na época. Mas, como vocês podem imaginar, a cera não foi feita para durar. Depois de cerca de 100 execuções, o atrito da agulha ia literalmente lixando o som até ele desaparecer para sempre.

É muito simbólico: o primeiro som gravado da história era também o mais frágil. Ele domesticou o fantasma do som, mas por muito pouco tempo. A experiência do som na era da cera era individual – você enfiava uns tubinhos nos ouvidos, ligados ao fonógrafo, e ouvia sozinho. E o som? Tinha um chiado característico, um ruído de fundo que os colecionadores até hoje chamam de “chiado de gelo”.

 

 

Kerria lacca

A Goma-Laca – O Som em Massa

Para a música se tornar realmente um produto, para milhares de pessoas ouvirem a mesma gravação, era preciso um novo material que permitisse a produção em massa. E é aqui que a nossa história dá uma guinada inesperada e nos leva para as florestas da Índia e da Tailândia.

O novo material se chamava goma-laca, ou shellac em inglês. E sabem de onde ela vem? De um inseto. Isso mesmo. A goma-laca é uma resina secretada pela fêmea do inseto Kerria lacca. O material bruto é raspado das árvores, refinado, misturado com cargas minerais e corantes, e então prensado a quente para formar os discos.

A grande vantagem da goma-laca sobre a cera era que ela era dura e estável o suficiente para funcionar como uma matriz. Vocês lembram do Berliner? Ele fazia um disco mestre, criava um molde negativo e depois prensava milhares de cópias idênticas. A goma-laca tornou isso possível em escala industrial.

Porém, essa dureza tinha um preço. Os discos de 78 RPM de goma-laca eram incrivelmente frágeis. Literalmente, se você deixasse um cair no chão, ele se espatifava em mil pedaços. Eles quebravam, lascavam, não resistiam a choques ou mudanças de temperatura.

 

Disco de Guerra

O Som que Veio da Guerra

A fragilidade crônica da goma-laca era um problema, mas foi um evento catastrófico que forçou a mudança definitiva: a Segunda Guerra Mundial.

A goma-laca vinha das florestas do Sudeste Asiático. Só que, durante a guerra, essas regiões estavam ocupadas pelo Japão, que era inimigo dos Estados Unidos. O fornecimento simplesmente secou. Além disso, o governo americano precisava de toda a goma-laca disponível para a indústria bélica – ela era usada em explosivos, revestimentos de projéteis e sinalizadores.

Era preciso uma alternativa. E a ciência dos polímeros, que avançava a passos largos, ofereceu a solução: o policloreto de vinila, o nosso popular PVC.

O PVC é um polímero sintético, feito a partir de derivados do petróleo e, curiosamente, do sal comum (cloreto de sódio) – ele contém 57% de cloro em massa. Diferente da goma-laca, que era uma resina natural e quebradiça, o PVC é um termoplástico. Isso significa que ele pode ser aquecido, moldado e, crucialmente, é flexível e virtualmente inquebrável.

Na guerra, os discos de vinil de 78 RPM (sim, os primeiros de vinil ainda eram 78 RPM) eram enviados aos soldados no fronte. Eram os famosos V-Discs. Os soldados americanos recebiam música de Glenn Miller, Bing Crosby e Frank Sinatra em discos que não quebravam durante o transporte e cabiam em seus mochilões. O vinil nasceu, literalmente, como um “disco de guerra”.

 

Long Play 1950

O Long-Play e a Magia do Microssulco

Terminada a guerra, a Columbia Records pegou esse material flexível e o combinou com outra inovação: o microssulco. Com uma agulha muito mais fina e sulcos muito mais estreitos, era possível gravar muito mais informação no mesmo espaço.

O resultado, em 21 de junho de 1948, foi o LP de vinil de 33⅓ RPM: até 23 minutos de música por lado, som cristalino, praticamente sem chiado, e um disco que você podia, literalmente, jogar de um lado para o outro sem medo de quebrar.

A cera nos deu o milagre do som capturado, mas ele era frágil e fugaz como um sussurro. A goma-laca permitiu que a música invadisse o mundo, mas ela era rígida e quebradiça com as convenções da era vitoriana.

O vinil veio da guerra, mas se tornou o instrumento da paz, da diversão e da revolução. Ele era flexível, inquebrável e democrático – exatamente o espírito que o rock and roll, que explodiria nos anos 1950, precisava.

A propósito, se você tem um LP do Led Zeppelin ou da Elis Regina em casa, saiba que você tem nas mãos um pedacinho de cloro, derivado do sal de cozinha, que um dia foi secretado por um inseto numa floresta tropical e virou música. É a alquimia do século XX.

 

 

A chegada do LP

No período em que decidiam ‘qual será a velocidade padrão dos discos’, a maioria dos consumidores comuns não recebeu a novidade com entusiasmo imediato, pois os novos discos de rotação lenta (33⅓ RPM) exigiam toca-discos compatíveis, eram mais caros e inicialmente tinham catálogo limitado. Já os audiófilos e amantes de música clássica apoiaram fortemente a mudança.

 

Contexto da mudança

  • Até o final dos anos 1940, o mercado era dominado pelos 78 RPM, frágeis e curtos (cerca de 4 minutos por lado).
  • Com o desenvolvimento do LP (Long Play) de 33⅓ RPM pela Columbia (1948) e do single de 45 RPM pela RCA (1949), os consumidores precisavam escolher um sistema incompatível com o outro.

 

Reação dos consumidores

  • Fãs de música clássica e sinfonias → receberam com festa o LP, pois permitia ouvir uma obra inteira sem interrupções. Era um público menor, mas influente.
  • Público jovem e fãs de pop/rock → resistiram inicialmente, preferindo os 45 RPM (mais baratos, portáteis, focados em sucessos de 3 minutos).
  • Dono médio de vitrola caseira → ficou confuso e irritado com a guerra de padrões, pois aparelhos antigos não tocavam os novos discos. Muitos só migraram quando surgiram toca-discos universais (com trocador de velocidade).

 

Fatores que prolongaram a convivência dos formatos

  • As gravadoras demoraram alguns anos para lançar catálogos robustos em LP.
  • O rádio e as jukeboxes continuaram usando 78 RPM por um tempo.
  • A quebra do acordo entre Columbia e RCA atrasou a adoção unificada.

 

 

 Resultado final

  • Por volta de meados dos anos 1950, com a queda do preço dos LPs e a produção em massa de toca-discos de múltipla velocidade, os consumidores passaram a aceitar o LP como padrão para álbuns completos, enquanto o single de 45 RPM reinou para compactos.
  • O 78 RPM desapareceu do mercado consumidor doméstico no início dos anos 1960.

 

 

Houve entusiasmo entre os ouvintes eruditos, mas frustração e ceticismo entre o grande público – até que a indústria resolvesse a incompatibilidade entre formatos e barateasse os novos aparelhos.

 

Material Período Composição Características Impacto
Cera ~1877-1912 (auge até ~1905) Mistura de ácido esteárico (≈48%), estearato de sódio (≈20%), estearato de alumínio (≈11%) e ceresina Gravação semiartesanal; cilindro; baixa durabilidade (≈100 execuções); som opaco (“chiado de gelo”) Som efêmero e fantasma é domesticado; experiência individual de escuta
Goma-laca ~1895-década de 1950 Resina do inseto Kerria lacca + cargas minerais e corantes Disco plano; produção em massa via prensagem; frágil e quebradiço (caiu, quebrou); som mais encorpado Cria a cultura de massa e o star system musical (Caruso); experiência social de escuta na sala de estar
Vinil (PVC) 1948 em diante Policloreto de vinila (PVC) – polímero sintético com 57% de cloro derivado do sal comum Inquebrável e flexível (“disco de guerra”); microssulcos; até 23 min/lado; som cristalino e silencioso Cria o conceito de “álbum” (não apenas uma música); matéria-prima para o rock e a contracultura

 

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