Reinaldo Portanova F°

TIMELINE: Do fonógrafo ao LP, dos telescópios às fitas magnéticas; as guerras que transformaram o mundo; a sociedade, ciência e tecnologia entrelaçadas com a evolução da música gravada; a história da humanidade contada através da evolução do som registrado no cilindro de cera ao disco rigido.

Do Mono ao Quadrifônico

O Som que Saiu da Caixa

Da cera frágil ao vinil inquebrável, do disco de 3 minutos ao álbum de 23. Mas em todos esses formatos, o som saía de um ponto – o cone de um gramofone, uma caixa acústica, no máximo duas. A grande revolução que vamos explorar agora não está mais no material do disco, nem no tempo de gravação. Está no espaço. Como a música aprendeu a nos cercar.

 

Do Mono ao Estéreo – A Conquista da Largura

Alan Blumlein

Para quem nasceu depois dos anos 1970, o som estéreo é tão natural quanto respirar. Vocês colocam um fone de ouvido e a guitarra está à esquerda, a bateria ao centro, o vocal à direita. Mas essa sensação de palco sonoro foi uma invenção.

O sistema mono, ou monaural, era o padrão desde o fonógrafo até meados dos anos 1950. Toda a informação sonora – vozes, instrumentos, ambiente – era mixada em um único canal e reproduzida por um único falante, ou por vários que repetiam exatamente o mesmo som. O resultado era um som “plano”: bonito, mas sem dimensão espacial.

A ideia de usar dois canais já existia desde os experimentos de Alan Blumlein nos anos 1930, mas o primeiro disco estereofônico comercial foi lançado pela Audio Fidelity em novembro de 1957. Era um disco de demonstração com sons de trens passando de um lado para o outro – o efeito era tão impressionante que as pessoas compravam o disco só para exibi-lo para as visitas. A partir dali, o estéreo se tornou rapidamente o novo padrão da indústria.

 

A Chegada do Quadrifônico – A Promessa do Som que Envolve

Se dois canais criavam largura, por que não usar quatro para criar um ambiente completo? Foi essa a pergunta que a indústria fonográfica se fez no final dos anos 1960.

A resposta foi o som quadrifônico: quatro canais independentes, com caixas de som posicionadas nos quatro cantos da sala, envolvendo o ouvinte.

As primeiras gravações quadrifônicas foram lançadas em fitas de rolo (reel-to-reel) em 1969, seguidas por cartuchos de 8 faixas (Quad-8) em abril de 1970.

E então começou o problema: como colocar quatro canais em um disco de vinil, que só tinha dois sulcos?

A indústria não encontrou uma resposta – encontrou várias. E foi aí que a história descarrilou.

 

 

Surgiram três sistemas principais e incompatíveis entre si:

  1. SQ (Stereo Quadraphonic), lançado pela CBS/Columbia em abril de 1971. Era um sistema matricial: os quatro canais eram codificados matematicamente nos dois sulcos do disco e depois decodificados por um aparelho. A grande vantagem: os discos SQ podiam ser tocados em qualquer toca-discos estéreo comum. A desvantagem: a separação entre os canais traseiros era limitada, causando vazamento de som entre eles.
  2. QS (Regular Matrix), desenvolvido pela Sansui e adotado pela ABC Records e outras gravadoras. Era conceitualmente semelhante ao SQ, mas com uma matriz de codificação diferente. O resultado prático era o mesmo: um consumidor com um decodificador SQ não conseguia extrair os quatro canais de um disco QS corretamente, e vice-versa.
  3. CD-4 (Compatible Discrete 4), lançado pela JVC e RCA Victor em maio de 1972. Ao contrário dos sistemas matriciais, o CD-4 era um sistema discreto: os canais traseiros eram codificados em frequências ultrassônicas (acima de 20 kHz, chegando a 50 kHz) no mesmo sulco. Isso exigia uma agulha especial (a famosa agulha Shibata, com perfil de contato em linha, mais fina que as agulhas comuns para poder ler essas altas frequências sem danificar o disco) e um demodulador específico. A separação entre canais era muito superior, mas havia um preço: o desgaste do disco era mais rápido e o alinhamento do toca-discos precisava ser quase perfeito.

 

A Guerra de Formatos que Matou o Quadrifônico

O que aconteceu a seguir foi uma confusão monumental. Um consumidor que quisesse entrar no mundo quadrifônico em 1974 enfrentava um verdadeiro campo minado. Ele comprava um LP quadrifônico, mas precisava saber: era SQ, QS ou CD-4? Seu decodificador era compatível? Ele tinha as quatro caixas de som iguais? E a agulha do toca-discos – era uma Shibata para ler CD-4 ou uma elíptica comum?

Para piorar, as grandes gravadoras escolheram lados. A Columbia/CBS apostou no SQ. A RCA Victor, no CD-4. A ABC Records, no QS. A EMI na Inglaterra lançou discos no formato SQ. Nenhum dos sistemas conversava com o outro. O custo era alto: era preciso um novo amplificador ou receptor, novas caixas de som e, dependendo do formato, um novo toca-discos ou pelo menos uma nova agulha.

Como resumiu um artigo da Mix Magazine: “O Quad, em sua forma original, foi um fracasso comercial. Os formatos de LP foram atormentados por problemas técnicos que foram resolvidos tarde demais para salvar o sistema do ponto de vista do consumidor.” O formato também exigia mais caixas de som, o que se tornou um problema de decoração e espaço.

O resultado foi que o quadrifônico doméstico estava essencialmente morto em 1977, apenas seis anos após seu lançamento – apesar de milhões de LPs e fitas terem sido produzidos.

 

 

Os Discos que Marcaram Época

Apesar do fracasso comercial, o legado artístico do quadrifônico é impressionante. Muitos artistas abraçaram a tecnologia e criaram mixagens que só décadas depois seriam redescobertas e relançadas em formatos digitais como DVD-Audio, SACD e Blu-ray.

 

Os exemplos mais emblemáticos:

 

  • Pink Floyd – The Dark Side of the Moon (1973): Mixado por Alan Parsons, o álbum ganhou uma edição quadrifônica no formato SQ (matricial) lançada no Reino Unido, Japão e Alemanha. O som envolvente das faixas – com efeitos de coração batendo, relógios e caixas registradoras – era perfeito para demonstrar as capacidades do sistema. Wish You Were Here (1975) também recebeu tratamento quadrifônico, com detalhes instrumentais extras que não aparecem na versão estéreo.
  • Frank Zappa – Over-Nite Sensation (1973) e Apostrophe (‘) (1974): Zappa foi um entusiasta do quadrifônico e lançou ambos os álbuns em CD-4 discreto pelo seu próprio selo DiscReet Records. Em 2004, muitas dessas mixagens foram compiladas no álbum QuAUDIOPHILIAc.
  • Black Sabbath – Paranoid (1970): O clássico do heavy metal recebeu uma mixagem quadrifônica com as guitarras de Tony Iommi e a voz de Ozzy Osbourne distribuídas pelos quatro canais. Foi relançado em 2023 na série Quadio da Rhino Records.
  • Alice Cooper – Billion Dollar Babies (1973): O álbum de glam rock foi outro destaque do catálogo quadrifônico, também relançado pela Rhino Records.
  • Mike Oldfield – Tubular Bells (1973): A obra-prima do rock progressivo ganhou uma mixagem quadrifônica que expandia ainda mais sua atmosfera hipnótica.
  • Santana, Deep Purple (Machine Head), The Allman Brothers Band e muitos outros também tiveram edições quadrifônicas. Centenas de títulos de rock foram lançados apenas entre 1970 e 1976.

 

Black Sabbath – Paranoid (1970) Mike Oldfield – Tubular Bells (1973)
THE BEST OF THE DOORS – 1973 Pink Floyd – The Dark Side of the Moon (1973)

 

O Legado do Quadrifônico

O quadrifônico foi um fracasso comercial retumbante, mas não foi um fracasso criativo. Ele foi a semente da qual brotaram todos os sistemas de som surround que vocês conhecem hoje: o Dolby Surround, o home theater 5.1, o 7.1 e os modernos sistemas, como Dolby Atmos.

A diferença é que hoje, com o áudio digital, não precisamos mais de agulhas especiais ou decodificadores incompatíveis. Mas a ideia fundamental – música que nos envolve, que nos transporta para dentro dela – nasceu naqueles LPs quadrifônicos dos anos 1970.

Até agora, viajamos pelas invenções, pelos formatos, pelas guerras comerciais e pelos artistas que marcaram época. Mas hoje vamos fazer uma visita aos bastidores. Vamos entrar na fábrica. Como exatamente a música que ouvimos saía do estúdio e chegava às nossas casas? Como se fabrica um disco em série? A resposta envolve química, física, artesanato de altíssima precisão e, acreditem, um pouco de magia.

 


A Conquista do Espaço no sulco do disco (do Mono ao Quadrifônico)

Tabela

Sistema Período Canais Como Funciona Experiência
Mono (Monaural) Até ~1957 1 Todas as informações sonoras mixadas em um único canal. Som “plano”, sem profundidade; todos os instrumentos no mesmo ponto.
Estéreo (Estereofônico) ~1957 em diante 2 Dois canais independentes (esquerdo e direito) criam um “palco sonoro”. Sensação de largura e posicionamento dos instrumentos entre as caixas.
Quadrifônico Matricial (SQ/QS) 1971-1976 4 (codificados em 2) Os 4 canais são “misturados” nos 2 sulcos do LP. Um decodificador separa os sinais para 4 caixas. Surround imersivo, mas com separação imperfeita entre os canais traseiros.
Quadrifônico Discreto (CD-4) 1972-1976 4 (discretos) Os 4 canais são totalmente independentes, com os traseiros codificados em frequências ultrassônicas (até 50 kHz). Melhor separação que o matricial, mas exige agulha especial (Shibata) e desgasta o disco mais rápido.

 

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