Certa feita, alguém me encomendou uma fita gravada com ‘set com as melhores Bandas grunge’ selecionadas pelo cliente. Percebi que as bandas na lista não era consideradas – pelos fãs do gênero – como ‘grunge’. É irrelevante este detalhe, pois suas escolhas foram bem representativas.
‘Grunge é um subgênero do rock alternativo que surgiu no final da década de 1980 no estado americano de Washington, principalmente em Seattle, inspirado pelo hardcore punk, pelo heavy metal e pelo indie rock’.
O curioso é que, ao receber a lista, qualquer guardião da ortodoxia grunge torceria o nariz. De fato, o termo “grunge” sempre foi uma prisão conceitual para a maioria das bandas que foram enfiadas nela. O selo foi uma criação da mídia e das gravadoras para dar nome a uma cena que, na essência, era multifacetada demais para caber numa única gaveta. O som que saía de Seattle não era monolítico; era um encontro acidental de desesperos e texturas diferentes.
O que chamamos de grunge, na verdade, era menos um gênero musical com regras fixas e mais um espírito de tempo, uma atitude. Era a trilha sonora de uma geração desencantada, que trocou os excessos coloridos do hair metal e a frivolidade sintética dos anos 80 por um realismo sujo, por guitarras carregadas de distorção e letras que falavam sobre a dor de existir sem pedir licença. Se o som vinha do punk arrastado do Mudhoney, do metal hipnótico do Soundgarden ou do rock introspectivo e explosivo do Pearl Jam, o que unificava tudo era uma honestidade brutal e uma recusa em parecer perfeito.
Por isso, a fita que gravei – com suas escolhas pouco ortodoxas – talvez tenha capturado o grunge em sua forma mais pura: um sentimento de angústia e catarse, independente da genealogia sonora. No fundo, o verdadeiro fã de Seattle sempre soube que, mais do que um estilo, o que importava era a mensagem. E se a seleção de quem encomendou a fita trazia essa mensagem, ainda que fora do script oficial, então estava certíssima. Afinal, a beleza da música alternativa sempre foi ignorar os rótulos que insistem em lhe colocar. E, cá entre nós, se a fita arranhava a alma e fazia as caixas de som vibrarem com uma distorção melancólica, era grunge de coração – e de fita cassete.