
Compilação de hits dos anos 80’s em versão 12′ (12 polegadas)
Estes sets tocam em dois pilares fascinantes da cultura musical dos anos 70 e 80: o surgimento do disco de 12 polegadas como formato e o fenômeno dos serviços de remix para DJs, personificado pelo Razormaid.
Em 1992, não tinha dinheiro para comprar todos aqueles discos de 12 e 7 polegadas que estavam à venda. O jeito foi recorrer às fitas cassete. As escolhidas eram as Sony UX, de embalagem violeta – para mim, as melhores da época. O tape deck era um Gradiente CD 5500, e a estratégia foi simples: gravei uma fita “master” diretamente dos vinis originais, com todo o cuidado possível. Depois de três décadas, essa master foi remasterizada, ou melhor, apenas digitalizei. Na época fiz a mesma gravação em outras fitas para escutar sem medo de estragar a original num imprevisto – um enrolamento, uma fita comida pelo mecanismo.
Guardei tudo por décadas. Em 2022, resolvi ouvir de novo aquelas fitas. A perda de qualidade foi praticamente nula. Ainda assim, copiei as masters originais e dei as cópias a um colecionador amigo meu, para que aquela seleção não ficasse restrita na minha prateleira.
Atualmente é fácil de encontrar todas as trilhas, o diferencial deste post é ser cópia de fita cassete. Estes sets tem uma curiosidade e se trata da origem das bandas. Nem todos eram mix ‘Razormaid‘, no entanto, todos eram importados, originais, nenhum nacional. Para este post fiz uma tabela com os anos e origem de cada uma das faixas e vou contar um pouco sobre estes discos e logo abaixo os sets com as digitalizações.

A História do Disco de 12″ (Maxi Single)
A história do 12″ como o conhecemos começa com um problema prático e um gênio criativo.
A Origem (1975-1976)
Até meados dos anos 70, o single padrão era o compacto de 7″ a 45 RPM. Para os DJs das discotecas, o som era baixo e a duração, curta (cerca de 3 minutos), dificultando as mixagens. O produtor Tom Moulton, considerado o pai do remix, buscava uma solução. Ele já criava versões estendidas em fita para DJs, mas prensá-las em vinil era o desafio.
Conta a lenda que, em 1975, Moulton foi a um estúdio de masterização com uma mixagem de dez minutos de “I’ll Be Holding On” de Al Downing. O engenheiro de corte, José Rodriguez, não tinha um lado de 7″ com espaço suficiente. Em vez de cortar a faixa, ele usou um disco de 12″ (o tamanho padrão de um LP, um álbum) e, com mais espaço físico, conseguiu gravar com sulcos mais largos e profundos. O resultado? Um som muito mais alto, potente e com graves definidos, além de uma duração muito maior.
O primeiro 12″ comercial foi “Ten Percent” do Double Exposure, lançado pela Salsoul Records em 1976. Foi uma revolução imediata.
A Era de Ouro (fim dos 70 e anos 80)
O 12″ rapidamente se tornou a ferramenta essencial do DJ. Ele permitia:
– Versões Estendidas: Introduções e “breakdowns” instrumentais longos, perfeitos para mixar uma faixa na outra.
– Remixes Verdadeiros: Releituras completas da música, com novos arranjos, linhas de baixo, percussão e, muitas vezes, uma atmosfera totalmente diferente.
– Qualidade Sonora Superior: Essencial para grandes sistemas de som.
As gravadoras perceberam o potencial comercial e começaram a lançar todo tipo de material em 12″, do Disco, Funk e Soul, passando pelo New Wave, Synth-Pop, Industrial e EBM nos anos 80. O formato virou uma tela em branco para produtores e remixers. Foi nesse caldeirão que as faixas citadas brilharam, cada uma com seu 12″ icônico:
– Dead or Alive – “You Spin Me Round (Like a Record)” (1984): Produzida pelo trio Stock Aitken Waterman, o 12″ “Performance Mix” é uma aula de como estender uma música pop sem perder a energia. Alonga a introdução, criando uma antecipação hipnótica antes do vocal explosivo de Pete Burns.
– Camouflage – “The Great Commandment” (1987): O 12″ é o exemplo perfeito da música eletrônica dançante da segunda metade dos anos 80. A versão estendida mergulha fundo em sintetizadores, batidas programadas e um clima sombrio e melódico, muito influenciado pelo Depeche Mode.
– Marc Almond – “Tears Run Rings” (1988): Saindo da sonoridade mais crua do Soft Cell, Almond adotou uma produção pop orquestral e grandiosa. O 12″ expande o drama com seções instrumentais exuberantes, perfeitas para pistas mais “alternativas” e sofisticadas.
– Electronic – “Getting Away with It” (1989): Um supergrupo (Bernard Sumner do New Order, Johnny Marr dos Smiths e Neil Tennant dos Pet Shop Boys). O 12″ é a ponte entre o rock alternativo e a dance music. As versões estendidas e remixes (como o “Vocal Remix”) exploram camadas de guitarras, sintetizadores e uma levada groovada que era sofisticada e dançante.
O que é ‘Razormaid’?
É aqui que a história fica ainda mais interessante e underground. Razormaid! não é uma pessoa, mas um serviço de remixes por assinatura para DJs, um dos mais lendários e influentes do mundo. Os melhores remixes dos anos 80 tem esta ‘assinatura’ (acima são apenas 4 deles, dos que estão no set list deste post)
O que era?
No início dos anos 80, DJs ávidos por material exclusivo para se destacarem começaram a encontrar uma solução em serviços como Disconet e Hot Tracks. Em 1985 (oficialmente 1986), em San Francisco, Joseph Watt, um DJ e engenheiro de som frustrado com os remixes “oficiais” que as gravadoras lançavam, decidiu fazer os seus próprios. Ele fundou a Razormaid! Productions com a filosofia de criar mixes especificamente “para a pista, por DJs“.
O nome “Razormaid” (uma fusão de “razor” – navalha – e “mermaid” – sereia, ou apenas uma brincadeira com a palavra) já dava o tom: cortes precisos e um som sedutor. A estética era de edições afiadas feitas com lâminas de barbear em fita magnética (antes da edição digital se popularizar), criando um fluxo agressivo e dançante que diferia dos remixes convencionais.
Como funcionava?
Era um clube de assinatura. DJs do mundo todo pagavam para receber periodicamente pacotes de discos de 12″ com remixes exclusivos da Razormaid! Eram tiragens limitadíssimas, em vinil, com capas genéricas (muitas vezes com a icônica silhueta de navalha e orelhas de Mickey Mouse, numa crítica sutil à Disney e ao mainstream). Você não comprava em lojas, era um material semi-clandestino, o que lhe conferia um status cult absoluto.
O Som Razormaid
Joseph Watt e sua equipe (incluindo figuras como Art Maharg e Mike Brown) criaram uma identidade sonora inconfundível:
– Edições Cirúrgicas: Rearranjo completo da estrutura da música, muitas vezes usando apenas o refrão e “picotando” versos de forma inesperada.
– Som Bombástico: Graves profundos, compressão pesada e um volume de corte altíssimo, que fazia o disco explodir nos sistemas de som em comparação com outros vinis.
– Foco em Alternativo Dançante: Enquanto outros serviços focavam em Disco e R&B, a Razormaid! foi pioneira em remixar New Wave, Synth-Pop, Industrial e EBM para as pistas de dança. Eles foram cruciais para artistas como Depeche Mode, New Order, Erasure, Front 242, Nitzer Ebb e, claro, muitos dos que você citou.
A Conexão com as Faixas Mencionadas
É muito provável que você tenha ouvido ou se deparado com as versões Razormaid! dessas músicas, pois eles criaram mixes famosos para todas elas, exceto, talvez, para o Dead or Alive (embora tenham feito muitos mixes de bandas da SAW):
– Camouflage – “The Great Commandment (Razormaid! Remix)”: É um dos remixes mais celebrados do serviço. Watt pegou a faixa e injetou ainda mais urgência, estendendo os breakdowns de sintetizador e dando um peso maior aos graves, tornando-a um hino absoluto nas pistas “dark” e de synth-pop.
– Electronic – “Getting Away with It (Razormaid! Remix)”: A Razormaid! criou um mix poderoso que realçava a linha de baixo melódica e a transformava em uma faixa mais direta para a pista, sem perder a elegância melancólica do original.
– Marc Almond – “Tears Run Rings (Razormaid! Remix)”: Eles transformaram a faixa orquestral em uma versão um pouco mais sintética e bombástica, típica do som Razormaid, adaptando o drama de Almond para DJs que tocavam em clubes maiores.
O Legado
A Razormaid! operou por mais de duas décadas, migrando para o CD e, depois, para o digital. Seu legado é imenso: eles profissionalizaram e validaram a arte do remix feito por DJs “de fora” da indústria tradicional, influenciaram gerações de produtores e ajudaram a definir como a música eletrônica alternativa poderia soar em uma pista de dança. O arquivo da Razormaid! é um tesouro arqueológico da história da dance music underground.
Em resumo: o disco de 12″ deu a tela, e a Razormaid! foi um dos pintores mais ousados e influentes a usá-la, transformando as pistas de dança em experiências sonoras mais intensas e clubísticas.
| ANO | PAÍS DE ORIGEM | ARTISTA E NOME DA MÚSICA | VERSÃO |
|---|---|---|---|
| 1988 | Reino Unido | Marc Alamond – Tears Run Rings (12′) | Razormaid! Remix (12″) |
| 1987 | Alemanha | Camouflage – The Greated Commanded (12′) | Razormaid! Remix (12″) |
| 1989 | Reino Unido | Eletronic – Get Away With It (12′) | Razormaid! Remix (12″) |
| 1983 | Reino Unido | Depeche Mode – Everything Count (12′) | Razormaid! Remix (12″) |
| ANO | PAÍS DE ORIGEM | ARTISTA E NOME DA MÚSICA | VERSÃO |
|---|---|---|---|
| 1979 | Reino Unido | Boogles – Radio Star (12′) | 12″ Single |
| 1982 | Reino Unido | The Beat – I Confess (12′) | 12″ Single |
| 1983 | Reino Unido | PIL – This is Not Love Song (12′) | 12″ Single |
| 1986 | Reino Unido | Gene Love Jezebel – Desire (12′) | 12″ Single |
| 1990 | Reino Unido (Escócia) | Astec Camera – I Go Crazy (12′) | 12″ Single |
| ANO | PAÍS DE ORIGEM | ARTISTA E NOME DA MÚSICA | VERSÃO |
|---|---|---|---|
| 1982 | Reino Unido | A Flock Of Seagulls – I Ran (7′) | 7″ Single |
| 1987 | Reino Unido | New Order – Touched By The Hand of God (12′) | Razormaid! Remix (12″) |
| 1988 | Canadá | Kon Kan – I Bag You Pardon (7′) | 7″ Single |
| 1984 | Reino Unido | General Public – Tenderness (12′) | 12″ Single |
| ANO | PAÍS DE ORIGEM | ARTISTA E NOME DA MÚSICA | VERSÃO |
|---|---|---|---|
| 1979 | Reino Unido | Boogles – Radio Star (7′) | 7″ Single |
| 1979 | Reino Unido | Tubeway Army – Me and Disconect From Here (7′) | 7″ Single |
| 1988 | EUA | Book Of Love – Lulabay (12′) | 12″ Single |
| 1988 | Reino Unido | When in Rome – No Prtomisse (7′) | 7″ Single |
| 1983 | Reino Unido | Eurythmics – Sweet Dreams (7′) | 7″ Single |
| 1985 | Reino Unido | Kiling Joke – Love Like a Blood (12′) | Razormaid! Remix (12″) |
| ANO | PAÍS DE ORIGEM | ARTISTA E NOME DA MÚSICA | VERSÃO |
|---|---|---|---|
| 1978 | Reino Unido | Hot Chocolate – Every 1’s a Winner (12′) | 12″ Single |
| 1973 | EUA | Timmy Thomas – Why Can’t We Live Together (1973) (12′) | 12″ Single (reedição) |
| 1982 | Reino Unido | ABC – The Look Of Love (12′) | 12″ Single |
| 1984 | Reino Unido | Billy Idol – Flesh For Fantasy (12′) | Razormaid! Remix (12″) |
| ANO | PAÍS DE ORIGEM | ARTISTA E NOME DA MÚSICA | VERSÃO |
|---|---|---|---|
| 1979 / 1987 | Reino Unido | Tubeway Army – The Cars (12′) | 12″ Single (E Reg Model Mix) |
| 1977 | Itália / Alemanha | Giorgio Moroder – The the eternity (12′) | 12″ Single |
| 1982 | Reino Unido | Thomas Dolby – She Blinded Me With Science (12′) | 12″ Single |
| 1994 | Reino Unido | Joe Jackson – In To The Light (12′) | 12″ Single |
| 1986 | Reino Unido | Gene Love Jezebel – Heartache (12′) | 12″ Single |
| ANO | PAÍS DE ORIGEM | ARTISTA E NOME DA MÚSICA | VERSÃO |
|---|---|---|---|
| 1978 | EUA | Sun – The Sun Is Here (12′) | 12″ Single |
| 1978 | EUA | Chic – Le Freak (12′) | 12″ Single |
| 1978 | EUA | A Taste of Honey – Boogie Oogie Oogi (12′) | 12″ Single |
| 1983 | EUA | KC & The Sunshine Band – Give It Up (12′) | 12″ Single |
| 1983 | EUA | Planet Patrol – Cheap Thrills (12′) | 12″ Single |
| ANO | PAÍS DE ORIGEM | ARTISTA E NOME DA MÚSICA | VERSÃO |
|---|---|---|---|
| 1978 | França | Voyage – Souvenirs (7′) | 7″ Single |
| 1979 | EUA | Jimmy ”Bo” Horne – You Get Me Hot (12′) | 12″ Single |
| 1978 | EUA | Cheryl Lynn – Got To Be Real (7′) | 7″ Single |
| 1979 | França (Martinica) | Gibson Brothers – Cuba (7′) | 7″ Single |