Reinaldo Portanova F°

TIMELINE: Do fonógrafo ao LP, dos telescópios às fitas magnéticas; as guerras que transformaram o mundo; a sociedade, ciência e tecnologia entrelaçadas com a evolução da música gravada; a história da humanidade contada através da evolução do som registrado no cilindro de cera ao disco rigido.

Revoluções por Minuto: A Guerra das Velocidades

A transição dos discos de 78 RPM vs. 45 RPM vs. 33⅓ RPM

Até meados do século XX, a indústria fonográfica era dominada pelos discos de 78 RPM, fabricados em goma-laca. Esses discos eram pesados, quebradiços e possuíam uma capacidade limitada de cerca de quatro minutos por lado, o que obrigava os ouvintes a interromperem obras longas, como sinfonias, frequentemente para virar o disco.

A grande mudança ocorreu quando a Columbia Records apresentou o LP (Long-Playing Record) de 33⅓ RPM. Feito de vinil inquebrável e utilizando microssulcos, o novo formato permitia armazenar mais de vinte minutos de música em cada lado, oferecendo uma qualidade de som superior e sem os chiados característicos do formato anterior.

A empresa adotou uma estratégia agressiva, lançando simultaneamente um vasto catálogo que abrangia música clássica, popular e infantil para garantir a aceitação do público.

A RCA Victor, principal concorrente da Columbia, recusou-se a adotar a nova tecnologia e lançou seu próprio formato: o disco de 45 RPM.

Este era um compacto colorido com um grande furo central, focado em músicas individuais de sucesso.

O consumidor passou a conviver com três formatos incompatíveis entre si: o antigo 78 RPM, o LP da Columbia e o compacto da RCA.

Com o tempo, o mercado se estabilizou e cada formato encontrou seu nicho. O LP consolidou-se como o padrão para álbuns completos e obras eruditas, enquanto o 45 RPM sobreviveu como o formato preferencial para “singles” e sucessos passageiros. Mesmo vendendo menos unidades que os compactos no início, o LP gerava maior receita por ser um produto mais valorizado e caro. Eventualmente, a própria RCA admitiu a superioridade do LP para álbuns e passou a fabricá-los também.

O sucesso do vinil expandiu-se globalmente, chegando a países como Reino Unido e Brasil nos anos seguintes. Esse avanço tecnológico marcou o declínio definitivo do disco de 78 RPM, abandonado pelas grandes gravadoras ao redor do mundo.

 

 


 

O Contexto

Até a década de 1940, o mercado era dominado pelo velho disco de 78 RPM. Feito de goma-laca, pesado, quebradiço, guardava apenas 4 minutos por lado. Se você quisesse ouvir uma sinfonia de Beethoven, precisava interromper a música a cada poucos minutos para virar o disco.

O Primeiro Tiro

Em 21 de junho de 1948, a Columbia Records apresentou o LP de 33⅓ RPM. Um único disco de 12 polegadas com 23 minutos por lado, material de vinil inquebrável e microssulcos tão finos que o som saía quase sem chiado.

A Tentativa de Paz

A Columbia tentou evitar uma guerra. Ofereceu sua tecnologia para a RCA Victor, sua principal concorrente. A RCA, liderada por David Sarnoff, recusou.

O Contra-Ataque

Em 31 de março de 1949, a RCA lançou o disco de 45 RPM: compacto (7 polegadas), colorido (azul, verde, vermelho, amarelo) e com um grande furo central.

A RCA instalou toca-discos em estações de rádio que só tocavam o novo formato. Em um mês, vendeu mais de um milhão de unidades.

 

Imagine o consumidor em 1949. Ele tinha três formatos incompatíveis: o velho 78, o novo LP da Columbia, e o compacto 45 da RCA.

 

A Confusão

A “Guerra das Velocidades” durou cerca de dois anos. No início dos anos 1950, a própria RCA começou a fabricar LPs. O LP venceu como formato para álbuns, e o 45 sobreviveu como formato de single – inaugurando a era do rock. Em 1954, um jovem chamado Elvis Presley gravaria “That’s All Right” em um 45 RPM da Sun Records.

Decidida as velocidades dos discos, após aquela batalha entre a Columbia e a RCA que deixou o consumidor tonto, com três formatos diferentes para escolher, inicia-se a era dos ‘discos de sucesso’.

As guerras não são travadas apenas com marketing e tecnologia, elas são travadas com números, com vendas, com a conquista do mercado. Vamos dar um mergulho no impacto comercial do LP de 33⅓ RPM.

 

Vamos ver como um disco de vinil preto, de 12 polegadas, transformou a indústria da música em um negócio bilionário, criou o conceito de “álbum” e, de quebra, aposentou de vez o velho disco de 78 RPM.

 

O Lançamento e a Recepção Comercial

Tudo começa, como já sabemos, em 21 de junho de 1948. Numa coletiva de imprensa no Hotel Waldorf-Astoria, em Nova York, a Columbia Records apresenta o LP – Long-Playing Record. Um disco de 12 polegadas, feito de vinil inquebrável, girando a 33⅓ rotações por minuto, capaz de armazenar entre 22 e 23 minutos de música de cada lado.

Mas a genialidade comercial da Columbia não foi apenas tecnológica – foi estratégica. No mesmo dia do anúncio, a gravadora colocou nas lojas um catálogo inteiro de LPs. Os números são impressionantes:

  • 85 títulos clássicos de 12 polegadas (série ML 4001 a ML 4085);
  • 26 títulos clássicos de 10 polegadas (série ML 2001 a ML 2026);
  • 18 títulos populares de 10 polegadas (série CL 6001 a CL 6018);
  • 4 títulos infantis de 10 polegadas (série JL 8001 a JL 8004);
  • E mais 2 box sets de ópera – La Bohème e Hansel & Gretel.

 

O consumidor entrava na loja e já encontrava dezenas de opções. Isso foi crucial para o formato pegar.

 

Até o final de 1948, em apenas seis meses e meio, a Columbia já havia vendido 1,25 milhão de LPs. A produção não parou de crescer: em março de 1950, a empresa produzia 600 mil LPs por mês.

O preço também ajudava. Um LP de 12 polegadas com uma sinfonia custava US$ 4,85, enquanto o mesmo conteúdo em cinco discos de 78 RPM saía por US$ 7,25.

 

As Personalidades por Trás da Revolução

Peter Carl Goldmark no laboratório da CBS

Por trás dessa revolução, estavam algumas mentes brilhantes que merecem ser nomeadas. O principal inventor foi Peter Carl Goldmark, um engenheiro húngaro-americano que liderava o laboratório da CBS. Ele e sua equipe – que incluía William Savory, William Bachman e Howard Scott – trabalharam nesse projeto desde 1939. A Segunda Guerra interrompeu os trabalhos, mas em 1945 eles retomaram e resolveram, um a um, os problemas técnicos.

Mas o LP não teria sido lançado sem a visão comercial de Edward Wallerstein, o presidente do conselho da Columbia. Foi ele quem anunciou o formato naquela coletiva de imprensa de 1948. Curiosamente, Wallerstein já havia tentado lançar um LP de vinil quando trabalhava na RCA Victor, em 1931 – mas o projeto fracassou por causa da Grande Depressão e das limitações técnicas da época.

Quem conduziu o evento no Waldorf-Astoria foi Goddard Lieberson, então diretor de A&R da Columbia. Lieberson se tornaria, mais tarde, presidente da gravadora entre 1956 e 1971, e foi um dos grandes responsáveis pela era de ouro do LP.

A Guerra dos Formatos e os Números

A RCA Victor não aceitou passivamente a revolução da Columbia. Em 31 de março de 1949, lançou o disco de 45 RPM – um compacto de 7 polegadas, com furo central grande, discos coloridos por gênero, e uma campanha de marketing milionária: US$ 5 milhões investidos.

O mercado se dividiu. Para o consumidor médio, a confusão era total. Mas o que os números mostram?

Em março de 1950, dezoito meses após o lançamento, a Columbia já havia produzido 5,5 milhões de LPs, o equivalente a 27,5 milhões de discos convencionais de 10 polegadas. A produção mensal atingia 600 mil unidades, e outros 1 milhão de “mini-LPs” de 7 polegadas eram cortados mensalmente.

Já a RCA Victor, que entrou meses depois, produzia 600 mil discos de 45 RPM por mês, com planos de dobrar esse número.

Os dados de vendas no varejo são ainda mais reveladores. Segundo a Billboard de 3 de junho de 1950, em um período de 12 meses as gravadoras americanas produziram:

 

Formato Unidades Valor no varejo
45 RPM 7,3 milhões US$ 5,6 milhões
LP (33⅓ RPM) 3,3 milhões US$ 12,5 milhões

 

Ou seja: o LP vendeu menos da metade das unidades do 45, mas gerou mais do que o dobro da receita. Por quê? Porque o LP era mais caro – e porque seu conteúdo era mais valorizado. O LP era o formato do álbum, da obra completa; o 45, o formato do single, da canção de sucesso passageiro.

No final de 1950, a própria RCA Victor admitiu a derrota na guerra dos álbuns e começou a fabricar LPs também.

 

Os Primeiros Discos e o Catálogo de Estreia

The Voice of Frank Sinatra

Que músicas estavam nesses primeiros LPs? A Columbia apostou em dois públicos: o erudito e o popular.

O primeiro LP de 12 polegadas da história foi o ML 4001: o Concerto para Violino em Mi Menor, Op. 64, de Felix Mendelssohn, interpretado pelo violinista Nathan Milstein com a Filarmônica de Nova York regida por Bruno Walter. A gravação havia sido feita em 16 de maio de 1945, no Carnegie Hall.

O primeiro LP de música popular foi o CL 6001: The Voice of Frank Sinatra. Um disco de 10 polegadas com oito canções interpretadas por Frank Sinatra com orquestra regida por Axel Stordahl. O álbum já existia desde março de 1946 como um conjunto de quatro discos de 78 RPM. A Columbia simplesmente o reeditou no novo formato.

Esses dois discos – o erudito e o popular – são as duas faces da estratégia da Columbia. A gravadora sabia que o LP precisava conquistar tanto as salas de concerto quanto as salas de estar.

A Expansão Global do LP

O sucesso nos Estados Unidos rapidamente se espalhou. Em maio de 1950, a Decca lançou os primeiros 50 LPs no Reino Unido, com toca-discos a partir de £10 libras. Em 1951, o LP já era uma realidade no Brasil, trazido pela importação. Em poucos anos, o formato se tornaria padrão mundial.

 

O Declínio e o Fim do 78 RPM

O velho disco de 78 RPM não morreu de um dia para o outro. Mas seu destino foi selado naquele 21 de junho de 1948. A velocidade do declínio variou conforme o país:

  • Nos EUA, o formato 78 RPM foi abandonado pelas grandes gravadoras entre 1955 e 1960. A Atlantic/Atco, por exemplo, encerrou sua produção de 78s em fevereiro de 1960.
  • No Reino Unido, os últimos 78s de grandes gravadoras saíram entre 1960 e 1961. O catálogo HMV retirou quase todos os 78s em 28 de fevereiro de 1961.
  • No Brasil, a produção de 78s se estendeu até julho de 1964. Roberto Carlos, que iniciara sua carreira naquele formato, testemunhou a transição para o compacto simples.

 

Alguns mercados periféricos – como Índia, África do Sul, Filipinas e Argentina – continuaram prensando 78’s para o consumo local até meados da década de 1960. O 78 RPM dominou o mundo por mais de 50 anos. Mas em apenas uma década – de 1948 a 1958 – o LP o aposentou definitivamente. Foi uma das transições tecnológicas mais rápidas e completas da história da indústria cultural.

 

Conclusão

Em 18 meses, 5,5 milhões de discos foram produzidos. Em 1950, a receita do LP já supera em mais de duas vezes a do 45, mesmo vendendo menos unidades.

Mais do que isso, o LP criou o álbum. Antes dele, a música popular era consumida em pílulas de 3 minutos. Com ele, surgiu a ideia de que um conjunto de canções podia formar uma obra coesa, com começo, meio e fim.

Dois anos depois do lançamento do LP, um obscuro cantor de country chamado Elvis Presley gravaria seus primeiros discos. E o rock and roll, que explodiria no final dos anos 1950, seria impensável sem o LP.

 

 


 

 

A Guerra das Velocidades

 

Formato 78 RPM 45 RPM 33⅓ RPM (LP)
Lançamento ~1895 Março de 1949 Junho de 1948
Criador Emile Berliner RCA Victor Columbia Records
Tamanho 10 ou 12 polegadas 7 polegadas 10 ou 12 polegadas
Duração 3 a 5 minutos 4½ minutos Até 23 minutos
Material Goma-laca (shellac) Vinil Vinil
Uso Principal Música popular Singles Álbuns e música clássica

 

Cronologia

 

Fase Período Eventos e Números-Chave Impacto
Lançamento e aposta inicial 21 de junho de 1948 Coletiva de imprensa no Hotel Waldorf-Astoria, Nova York; 85 LPs clássicos de 12”, 26 clássicos de 10”, 18 populares de 10” e 4 infantis lançados de uma só vez. Disparada inicial: 1,25 milhão de cópias vendidas até o final de 1948.
Guerra dos formatos 1949-1951 RCA contra-ataca com o 45 RPM (março de 1949); mercado se divide entre 33⅓, 45 e o velho 78 RPM. Consumidor confuso, mas o mercado se expande. LP vence como formato de álbum.
Domínio comercial Década de 1950 Até março de 1950: 5,5 milhões de LPs produzidos; 2,5 milhões de lares com toca-discos 33⅓. A receita do LP supera a do 45. Álbum se torna obra de arte.
Fim do 78 RPM 1955-1964 1955: 78 RPM desapareceu nos EUA e Europa; 1960-61: últimos 78s comerciais; 1964: fim no Brasil. Padronização dos dois formatos que conhecemos até hoje.
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