Reinaldo Portanova F°

TIMELINE: Do fonógrafo ao LP, dos telescópios às fitas magnéticas; as guerras que transformaram o mundo; a sociedade, ciência e tecnologia entrelaçadas com a evolução da música gravada; a história da humanidade contada através da evolução do som registrado no cilindro de cera ao disco rigido.

Como Eram Fabricados os Discos em Série

Da Cera ao Vinil

Os discos de 78 rotações por minuto (RPM) começaram a ser fabricados em série em 1898. O marco inicial foi estabelecido pela primeira grande produção pela Gramophone Company no Reino Unido, a partir de agosto daquele ano.

Embora o formato 78 RPM como o conhecemos tenha se consolidado como padrão mundial por volta de 1910 e a velocidade nominal de 78 RPM tenha se popularizado especialmente a partir de meados da década de 1920, a produção em série do formato que posteriormente seria chamado de “78” começou efetivamente em 1898.

Vale notar que essa produção em série durou até o final da década de 1950, quando foi gradualmente substituída pelos discos de vinil de 33⅓ RPM (LPs) e 45 RPM (singles). Em alguns contextos específicos e colecionadores, discos de 78 RPM continuaram a ser fabricados além dessa data, mas a escala industrial foi encerrada naquela época.

 

Etapa O que é Curiosidade
1. Gravação e Masterização Captação do som em estúdio e transferência para um disco de laca (acetato) usando um torno de corte com agulha de safira. Na era do 78 RPM, a orquestra tocava ao vivo diante de uma concha acústica que direcionava o som para a agulha de corte.
2. Eletroformação (Pai, Mãe, Filho) Processo químico que transforma o frágil disco de laca em estampos de metal resistentes, capazes de prensar milhares de cópias. O disco de laca recebe um banho de prata e depois é mergulhado em níquel para “cultivar” uma camada de metal sobre ele.
3. Prensagem O “biscoito” de vinil aquecido é esmagado entre dois estampos sob alta pressão e temperatura, formando os sulcos em cerca de 30 segundos. A prensa hidráulica aplica mais de 100 toneladas de pressão e aquece o vinil a mais de 180°C.
4. Controle de Qualidade Amostras de cada lote são inspecionadas visualmente e ouvidas do início ao fim por técnicos experientes. Cada par de estampos gera entre 500 e 1000 discos antes de se desgastar e precisar ser substituído.
5. Mono, Estéreo e Quadrifônico Diferentes formas de codificar o som nos sulcos: lateral (mono), 45/45 (estéreo), matricial e discreto (quadrifônico). O CD-4 quadrifônico exigia uma agulha especial (Shibata) capaz de ler frequências ultrassônicas de até 50.000 Hz.

 

Fases das Gravações

A Gravação e a Masterização

Tudo começa, é claro, com a música. Mas antes da linha de produção, a performance precisava ser capturada e transformada em uma matriz física.

Nos tempos do disco de 78 RPM, o processo era totalmente acústico e mecânico. O artista ou a orquestra se posicionava diante de uma grande concha acústica, que concentrava o som e o direcionava para uma agulha.

Essa agulha vibrava e esculpia os sulcos diretamente em um disco de cera quente. Era um momento de tensão absoluta: qualquer erro significava recomeçar do zero.

Com o advento da fita magnética nos anos 1940 e 1950, tudo mudou. O áudio passou a ser gravado primeiro em fita, o que permitia edições, regravações e, principalmente, uma etapa fundamental: a masterização. Nessa etapa, o engenheiro de som ajustava timbres, volumes e equalização. Era um trabalho minucioso. Era preciso garantir que os graves não fossem tão profundos a ponto de quebrar as paredes entre os sulcos, nem os agudos tão intensos que a agulha do consumidor não conseguisse lê-los.

Com a fita master pronta, um torno de corte entrava em ação. Uma cabeça de corte equipada com um estilete de safira transferia o áudio para um disco de laca, também chamado de acetato. Esse disco de laca era a matriz original, frágil e preciosa. A partir dele, a produção em massa podia começar.

A Eletroformação – Pai, Mãe e Filho

Agora começa a parte que mais parece alquimia. O frágil disco de laca não podia ser usado diretamente na prensa. Era preciso transformá-lo em moldes de metal duríssimos. Esse processo se chama eletroformação e acontecia em três etapas, batizadas com nomes de família.

Primeiro, o “Pai” (Master): O disco de laca era pulverizado com uma finíssima camada de prata, para se tornar condutor de eletricidade. Depois, era mergulhado em um banho de níquel. Por meio de eletrodeposição, uma camada de metal ia se depositando sobre a superfície. Quando essa camada era removida, revelava-se uma cópia negativa perfeita, com sulcos em relevo. Era o “Pai”, ou master.

Depois, a “Mãe” (Mother): Para segurança e para a produção em larga escala, o “Pai” passava pelo mesmo processo, gerando agora uma cópia positiva, com sulcos iguais aos do disco final. Essa cópia era chamada de “Mãe”. Sua principal função era servir de molde mestre para gerar múltiplos estampos. Além disso, permitia que os engenheiros ouvissem o disco e verificassem a qualidade antes da produção em massa.

Por fim, o “Filho” (Stamper): A “Mãe”, por sua vez, era usada para gerar os “Filhos”, ou estampos. Estes sim eram os moldes negativos finais, feitos de metal duro. Eles seriam instalados nas prensas hidráulicas da fábrica para, literalmente, esmagar o vinil e formar os sulcos do disco final. Cada “Mãe” podia gerar vários “Filhos”, e cada “Filho” podia prensar centenas de discos.

 

A Prensagem – O Nascimento do Disco

Chegamos à linha de produção. A prensagem era um espetáculo de força e precisão que durava poucos segundos.

Nos discos de goma-laca (78 RPM): O processo era mais rústico. A pasta de goma-laca, misturada com cargas minerais, era amassada até formar uma “panqueca” ou “biscoito”. Esse biscoito era colocado entre os dois estampos da prensa. Sob calor e uma pressão de cerca de 110 toneladas, o material era moldado. Uma curiosidade: os rótulos de papel não eram colados depois – eles eram literalmente prensados e fundidos ao disco durante essa etapa, tornando-se parte inseparável dele.

Nos discos de vinil (LP e 45 RPM): O processo era mais refinado. Grânulos de PVC eram aquecidos a mais de 180°C e extrudados, formando um “biscoito” com a consistência de um caramelo quente. Esse biscoito era colocado entre os dois estampos. A prensa hidráulica descia com uma força de mais de 100 toneladas, esmagando o vinil e forçando-o a preencher cada microsulco do molde. Em seguida, água fria circulava pela prensa para resfriar e solidificar o vinil. Todo o ciclo de prensagem levava cerca de 30 segundos. Ao final, uma lâmina aparava o excesso de vinil nas bordas, dando ao disco seu formato circular perfeito.

 

O Controle de Qualidade

Nenhum disco saía da fábrica sem passar por um rigoroso controle de qualidade. Amostras aleatórias de cada lote de prensagem eram retiradas e submetidas a dois tipos de inspeção.

Primeiro, a inspeção visual: o técnico examinava a superfície do disco em busca de imperfeições, bolhas, manchas ou rebarbas. Depois, a inspeção auditiva: o técnico ouvia o disco do início ao fim, em tempo real, prestando atenção a estalos, chiados, distorções ou qualquer ruído que pudesse indicar um estampo desgastado ou sujeira no processo.

Cada par de estampos gerava entre 500 e 1000 cópias antes de começar a se degradar e precisar ser substituído.

 

Mono, Estéreo e Quadrifônico – A Revolução nos Sulcos

Até agora falamos do processo físico. Mas a grande revolução estava na forma como o som era codificado nesses sulcos.

No áudio mono, um único sulco em forma de “V” vibrava lateralmente. Toda a informação sonora – vozes, instrumentos, ambiente – era codificada nesse único movimento. O som era “plano”, mas perfeitamente funcional.

A transição para o estéreo, em 1957, foi uma revolução na fabricação. Para gravar dois canais independentes, os engenheiros desenvolveram o sulco estéreo 45/45. Nesse sistema, cada parede do sulco em “V” vibrava de forma independente e em um ângulo de 45 graus em relação à vertical. Uma parede continha o canal esquerdo, a outra o canal direito. A agulha do toca-discos, ao percorrer o sulco, captava essas vibrações bidimensionais e as convertia de volta em dois canais separados. Isso exigiu uma precisão de usinagem sem precedentes nos tornos de corte e nas prensas.

Já o som quadrifônico, que prometia quatro canais independentes, trouxe desafios ainda maiores.

A indústria se dividiu em duas abordagens incompatíveis:

 

  • Sistemas Matriciais (SQ e QS): Eram engenhosos. Um codificador eletrônico combinava os quatro canais em apenas dois, usando truques de fase. Esses dois canais eram gravados no disco como um sulco estéreo comum. Nenhuma alteração no processo de fabricação era necessária. Para ouvir em casa, porém, era preciso um decodificador especial. A desvantagem era uma separação imperfeita entre os canais.

 

  • Sistema Discreto (CD-4): Este sistema mantinha os quatro canais totalmente independentes. Para isso, os canais traseiros eram codificados em frequências ultrassônicas, chegando a 50.000 Hz. Isso exigia um torno de corte capaz de gravar essas frequências altíssimas e, principalmente, uma agulha de reprodução especial – a famosa agulha Shibata – com um perfil muito mais fino, capaz de ler esses detalhes microscópicos sem destruir o disco.

 

 

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