Reinaldo Portanova F°

TIMELINE: Do fonógrafo ao LP, dos telescópios às fitas magnéticas; as guerras que transformaram o mundo; a sociedade, ciência e tecnologia entrelaçadas com a evolução da música gravada; a história da humanidade contada através da evolução do som registrado no cilindro de cera ao disco rigido.

Formatos de Fita Magnética

Formatos de Fita Magnética

O Vídeo Tape – A TV que Aprendeu a Esperar

AMPEX VRX-1000

Até meados dos anos 1950, a televisão era quase inteiramente ao vivo. Para transmitir um programa em diferentes fusos horários, as emissoras americanas recorriam ao kinescope: filmavam a tela de um monitor com uma câmera de cinema, revelavam a película e depois a transmitiam. O processo era caro, lento e resultava em baixa qualidade de imagem.

Em 14 de abril de 1956, na convenção da NARTB em Chicago, a empresa americana Ampex (fundada em 1944 pelo engenheiro de origem russa Alexander M. Poniatoff) apresentou o VRX-1000. Era o primeiro videoteipe comercialmente viável do mundo. A equipe de desenvolvimento foi liderada por Charles Ginsburg e contou com a participação do jovem Ray Dolby. O sistema usava fitas de 2 polegadas de largura e um sistema de gravação transversal chamado Quadruplex: quatro cabeças montadas em um tambor giratório a 14.400 RPM gravavam faixas transversais na fita, resolvendo o problema da enorme largura de banda do sinal de vídeo.

O primeiro uso comercial ocorreu em 30 de novembro de 1956, quando a CBS transmitiu o programa Douglas Edwards and the News com atraso para a Costa Oeste dos EUA. No Brasil, o videoteipe chegou em 21 de abril de 1960, usado pela TV Tupi de São Paulo.

O Videocassete Doméstico – A Guerra Betamax vs. VHS

Betamax Tape

O videotape profissional era enorme, caríssimo e exigia operadores especializados. A corrida para miniaturizá-lo e barateá-lo começou nos anos 1970. Em 1975, a Sony lançou o formato Betamax. Em 1976, a JVC (Japan Victor Company), liderada por Yuma Shiraishi e Shizuo Takano, lançou o VHS (Video Home System).

Os dois formatos eram incompatíveis. Ambos usavam fitas de ½ polegada (12,7 mm) dentro de cartuchos plásticos. O Betamax oferecia qualidade de imagem ligeiramente superior e cassetes menores. Mas o VHS tinha uma vantagem comercial decisiva: maior capacidade de gravação (até 2 horas, contra 1 hora do Betamax inicial) e um licenciamento mais flexível da JVC. Em 1982, a Sharp lançou o primeiro videocassete fabricado no Brasil.

A guerra durou uma década. No final dos anos 1980, o VHS venceu e se tornou o formato dominante de home video até o surgimento do DVD.

A Fita Cassete e a Música no Bolso

Enquanto o vídeo buscava seu espaço, o áudio passava por sua própria revolução portátil. Em 30 de agosto de 1963, a Philips apresentou a Compact Cassette na Exposição de Rádio de Berlim. O inventor foi Lou Ottens, engenheiro-chefe da divisão de áudio da Philips na Bélgica. A fita cassete usava uma fita de 3,81 mm de largura correndo a 4,76 cm/s. Em 1964, a Philips licenciou gratuitamente o formato, permitindo que qualquer fabricante o produzisse.

Paralelamente, em 1969, a Olympus lançou a Microcassete, um formato ainda menor que a fita cassete compacta, destinado principalmente a ditafones e gravação de voz. Ele usava a mesma largura de fita (3,81 mm) mas em uma velocidade mais lenta, sacrificando a fidelidade de áudio em prol da portabilidade extrema. Por décadas, a microcassete foi a ferramenta padrão de jornalistas, médicos e profissionais que precisavam gravar notas de voz.

Ditafones são dispositivos de gravação de voz projetados para registrar ditados, conversas e anotações para transcrição posterior. Originalmente inventados como uma marca comercial (Dictaphone®) baseada no fonógrafo de Thomas Edison, hoje o termo abrange desde modelos históricos a cilindro de cera até gravadores digitais e de bolso atuais.

Nos lares, as pessoas passaram a usar a fita cassete para gravações caseiras de toda ordem: mensagens pessoais, palestras, ensaios musicais, compilações de músicas favoritas. As chamadas mixtapes se tornaram uma forma de expressão cultural, com seleções de canções gravadas do rádio ou de outros discos.

Em 1º de julho de 1979, a Sony lançou o Walkman TPS-L2, concebido pelo engenheiro Nobutoshi Kihara a partir de um pedido do cofundador Masaru Ibuka. O Walkman transformou a fita cassete no formato de áudio dominante dos anos 1980.

Formatos Digitais – DAT e MiniDisc

Nos anos 1980, a indústria tentou levar o áudio digital para a fita magnética. Em 1987, a Sony introduziu o DAT (Digital Audio Tape), um formato que usava um pequeno cassete com cabeça rotativa (tecnologia emprestada do vídeo) para gravar áudio digital com qualidade de CD.

Em 1992, a Sony lançou o MiniDisc (MD). Embora usasse um disco magneto-óptico em vez de fita, o MD era o herdeiro conceitual da fita cassete: portátil, regravável e à prova de choques. Ambos os formatos tiveram sucesso moderado em nichos profissionais, mas não conseguiram destronar a fita cassete nem o CD.

Fitas de Estúdio e Gravação Multipista

Ampex 440 e MM1000

Nos estúdios de gravação, a fita magnética em formato de rolo (reel‑to‑reel) era a ferramenta central. As fitas variam em largura: ¼”, ½”, 1″ e 2″, operando em velocidades de 7½, 15 ou 30 ips (polegadas por segundo). Os gravadores multipista, como os da série Ampex MM-1000 (1967) ou os Studer A800 (1978), permitiam gravar 8, 16 ou 24 canais independentes na mesma fita, revolucionando a produção musical. As mesas de mixagem, combinadas com a edição em fita, permitiam que produtores criassem camadas sonoras complexas que definiram o som do rock e do pop a partir dos anos 1970.

Armazenamento de Dados – Mainframes e Disquetes

Paralelamente ao áudio, a fita magnética se tornou a espinha dorsal do armazenamento de dados nos primeiros computadores. Em 21 de maio de 1952, a IBM anunciou a unidade de fita IBM 726, desenvolvida por James A. Weidenhammer e sua equipe. Ela usava o revolucionário sistema de coluna de vácuo para manter um loop de fita que permite partidas e paradas em alta velocidade sem romper a fita. Cada rolo de 10½ polegadas podia armazenar cerca de 2 milhões de dígitos.

Essas fitas de ½ polegada em rolos abertos foram o padrão de armazenamento em mainframes por mais de três décadas, evoluindo para cartuchos como os formatos 3480 (1984) e LTO (2000).

Em 1971, a IBM introduziu o disquete de 8 polegadas, desenvolvido por uma equipe liderada por Alan Shugart. Ele armazenava 80 kB. O disquete evoluiu para os formatos de 5¼” (1976) e 3½” (1981), que se tornaram onipresentes nos computadores pessoais dos anos 1980 e 1990.

O Disco Rígido – O Ápice da Gravação Magnética

O armazenamento magnético não se limitou à fita. Em 14 de setembro de 1956, a IBM anunciou o IBM 350 RAMAC, o primeiro disco rígido comercial da história. A equipe foi liderada por Reynold B. Johnson. O RAMAC usava 50 discos de alumínio de 24 polegadas, girando a 1.200 RPM, com uma capacidade total de 5 MB. Pesava mais de uma tonelada e ocupava o espaço de duas geladeiras. As cabeças de leitura/gravação flutuavam a 800 micropolegadas da superfície, sustentadas por um colchão de ar comprimido.

O disco rígido evoluiu exponencialmente: os 5 MB de 1956 se tornaram gigabytes e depois terabytes. Hoje, um disco rígido de bolso armazena o equivalente a milhões de RAMACs. Mas o princípio fundamental – magnetizar pontos em uma superfície em movimento – é o mesmo.

A Voyager e o Legado Interestelar

Em agosto e setembro de 1977, a NASA lançou as sondas Voyager 1 e 2. Cada uma carrega um disco fonográfico de cobre banhado a ouro – o Voyager Golden Record – contendo sons e imagens da Terra.

Embora o disco em si não seja magnético, seu processo de produção dependeu da fita magnética: as gravações de áudio foram masterizadas em fita antes de serem transferidas para o disco. O comitê responsável pela seleção do conteúdo foi liderado por Carl Sagan. O disco contém saudações em 55 línguas, sons da natureza e 27 peças musicais, incluindo Bach, Beethoven e cantos tradicionais de diversas culturas.

Em 2012, a Voyager 1 se tornou o primeiro objeto humano a deixar a heliosfera. Hoje, as duas sondas estão a mais de 15 bilhões de quilômetros da Terra, carregando consigo um testemunho da civilização que as criou – um testemunho que só foi possível graças à fita magnética.

Conclusão

Chegamos ao fim desta jornada pela era da fita magnética. Vimos como uma tecnologia que começou com tiras de papel e pó de aço se desdobrou em uma multiplicidade de formatos e aplicações: o videoteipe que revolucionou a TV, o VHS que levou o cinema para dentro de casa, a fita cassete que fez a música caber no bolso, o DAT e o MiniDisc que tentaram digitalizar o som, os rolos de estúdio que gravaram as obras-primas do rock, os disquetes e discos rígidos que armazenaram os dados da era da informação, e até os discos dourados que hoje viajam pelo espaço interestelar.

A fita magnética foi, por quase meio século, a principal tecnologia de registro da humanidade. Ela capturou nossa voz, nossa música, nossas imagens e nossos dados. E, de certo modo, ainda captura: as fitas LTO continuam sendo o meio preferido para backup de grandes volumes de dados. O legado da fita magnética está longe de terminar.

Vamos percorrer os anos finais do século XX, um período em que a tecnologia de armazenamento e comunicação passou por transformações tão radicais quanto as que vimos no século XIX. Em apenas 25 anos – de 1975 a 2000 – o mundo foi do vinil ao CD, do VHS ao DVD, do telefone fixo ao celular, da carta ao e-mail. E o mais impressionante: tudo isso tem uma linhagem comum, que remonta ao cilindro de cera de Thomas Edison e às fitas magnéticas que estudamos anteriormente.

 


Do Estúdio ao Espaço

Na tabela que segue tem a apresentação dos formatos de ‘fitas magneticas’ (no sentido amplo), seu uso e desenvolvedores. Elas já existiam antes mesmo do popular ‘cassete’ e eram destinados aos registros de imagens e dados para uso em computadores.

1950-2000

Domínio Período Formato / Tecnologia Inventor / Empresa Uso Principal
Vídeo profissional 1956 Quadruplex (Ampex VRX-1000) Ampex (Charles Ginsburg, Ray Dolby) TV broadcast – primeiro videotape
1969 U-matic Sony Vídeo profissional e educativo
1980s Betacam Sony Jornalismo e produção broadcast
Vídeo doméstico 1975 Betamax Sony Gravação caseira de TV
1976 VHS JVC (Yuma Shiraishi, Shizuo Takano) Home vídeo – formato vencedor
Áudio portátil 1963 Compact Cassette Philips (Lou Ottens) Música portátil, gravação doméstica
1969 Microcassete Olympus Ditafones, mensagens de voz
1979 Walkman TPS-L2 Sony (Nobutoshi Kihara) Música nômade
Áudio digital 1987 DAT (Digital Audio Tape) Sony Gravação digital profissional
1992 MiniDisc (MD) Sony Gravação digital regravável
Dados / Computação 1952 IBM 726 Tape Unit IBM (James Weidenhammer) Armazenamento em mainframe
1971 Disquete 8″ IBM (Alan Shugart) Armazenamento removível
1956 IBM 350 RAMAC IBM (Reynold B. Johnson) Primeiro disco rígido (5 MB)
Espaço 1977 Voyager Golden Record NASA / Carl Sagan Mensagem interestelar

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