Reinaldo Portanova F°

TIMELINE: Do fonógrafo ao LP, dos telescópios às fitas magnéticas; as guerras que transformaram o mundo; a sociedade, ciência e tecnologia entrelaçadas com a evolução da música gravada; a história da humanidade contada através da evolução do som registrado no cilindro de cera ao disco rigido.

A Portabilidade da Fita Magnética

A Portabilidade da Fita Magnética

O Magnetophon – A Invenção que Veio da Alemanha

Tudo começa com um engenheiro austro-alemão chamado Fritz Pfleumer. Em 1928, ele patenteou uma ideia engenhosa: revestir tiras de papel com partículas de ferro para gravar som magneticamente. A empresa AEG (Allgemeine Elektricitäts-Gesellschaft) comprou a patente e, em parceria com a BASF (que desenvolveu a química da fita), criou o primeiro gravador de fita magnética prático do mundo.

Em agosto de 1935, na Exposição de Rádio de Berlim, a AEG apresentou o Magnetophon K1. A fita era de acetato de celulose e a qualidade de som, inicialmente, era apenas razoável – cheia de chiado, como uma televisão fora de sintonia. O modelo seguinte, o K4, lançado em 1938, já era um produto comercial viável.

Mas a grande virada aconteceu por acaso. Por volta de 1940, engenheiros alemães, liderados por Walter Weber, descobriram o “AC bias” – uma corrente elétrica de alta frequência que, aplicada durante a gravação, eliminava quase completamente o ruído de fundo. De repente, uma gravação em fita magnética soava mais limpa e mais fiel do que qualquer disco de 78 RPM. Diz-se que especialistas não conseguiam distinguir a gravação de uma performance ao vivo.

Um dos primeiros concertos a serem gravados com o Magnetophon foi a Sinfonia nº 39 de Mozart, executada pela Orquestra Filarmônica de Londres em 1936. Hitler usaria versões aperfeiçoadas desses gravadores para transmitir discursos em diferentes cidades, dando a ilusão de estar em vários lugares ao mesmo tempo.

Jack Mullin, Bing Crosby e a Conquista da América

A Segunda Guerra Mundial terminou em 1945. E foi nos escombros da Alemanha que a história da fita magnética deu sua grande guinada. Um oficial do Corpo de Sinais do Exército americano chamado Jack Mullin encontrou dois Magnetophons K4 em uma estação de rádio perto de Frankfurt e os enviou para casa.

Em 16 de maio de 1946, Mullin demonstrou o equipamento para o capítulo de São Francisco do Institute of Radio Engineers, um evento que contou com a presença dos engenheiros Harold Lindsay e Myron Stolaroff, futuros fundadores da Ampex. Mullin também mostrou a tecnologia para a MGM em Hollywood em outubro de 1946.

Em junho de 1947, Mullin demonstrou o Magnetophon para o maior astro do rádio americano: Bing Crosby. Crosby odiava ter que cantar ao vivo duas vezes – uma para a Costa Leste e outra para a Costa Oeste dos EUA. Ele ficou maravilhado com a qualidade do som e com a possibilidade de gravar e editar seus programas. Crosby investiu US$ 50.000 na Ampex para desenvolver um gravador comercial. E assim nasceu o Ampex Model 200, o primeiro gravador de fita magnética profissional americano.

Em 1º de outubro de 1947, foi ao ar o primeiro programa de rádio gravado e editado em fita magnética: o Philco Radio Time, estrelado por Bing Crosby. A era da fita magnética na indústria fonográfica havia começado. Em menos de três anos, praticamente todos os grandes estúdios de gravação americanos tinham um Ampex Model 200.

O Cartucho 8-Track – A Trilha Sonora da Estrada

Os gravadores de rolo (reel-to-reel) que dominaram os estúdios nos anos 1950 eram excelentes, mas nada práticos para o uso doméstico. Você precisava enfiar a fita manualmente por cabeçotes e carretéis, como uma máquina de costura. O consumidor comum queria algo simples: inserir o cartucho e apertar o play.

A resposta veio do mesmo homem que inventou o jato executivo Learjet: William Powell Lear. Ele pegou um cartucho de 4 pistas já existente (o Muntz Stereo-Pak) e o aprimorou, criando o Stereo 8, popularmente conhecido como cartucho 8-track. Lançado em setembro de 1965, o formato tinha uma grande sacada: uma fita em loop contínuo, dividida em 8 trilhas (4 programas estéreo). Você não precisava rebobinar. A fita simplesmente rodava para sempre.

O verdadeiro impulso veio da indústria automobilística. Em setembro de 1965, a Ford passou a oferecer toca-fitas 8-track de fábrica em todos os modelos 1966. Imagine a cena: um Mustang 66, cabelos ao vento, e um cartucho encaixado no painel. O 8-track se tornou a trilha sonora da estrada, o formato perfeito para o rock e a psicodelia.

Os catálogos explodiram. Em 1965, Rubber Soul dos Beatles foi o primeiro álbum da banda lançado em 8-track. Em 1968, os Beatles lançariam The Beatles (o “Álbum Branco”) também nesse formato. Em 1969, Abbey Road foi outro grande lançamento em cartucho. Em 1973, The Dark Side of the Moon do Pink Floyd – com suas transições suaves entre faixas – sofreu no 8-track porque o formato dividia o álbum em quatro blocos, muitas vezes interrompendo músicas no meio. Ainda assim, foi um sucesso de vendas. Também em 1973, Goodbye Yellow Brick Road de Elton John foi outro best-seller no formato.

Em 1977, os Bee Gees lançaram a trilha de Saturday Night Fever, um dos últimos grandes sucessos do 8-track. Outros artistas que brilharam no formato incluem Fleetwood Mac, Led Zeppelin, The Rolling Stones, Marvin Gaye e Stevie Wonder.

No Brasil, os cartuchos 8-track também tiveram seu momento. Em 1967, Roberto Carlos lançou Roberto Carlos em Ritmo de Aventura no formato. Outros artistas brasileiros como Elis Regina, Caetano Veloso, Gal Costa e Chico Buarque também tiveram seus trabalhos disponíveis em cartuchos.

Mas o formato tinha problemas crônicos. A fita em loop se desgastava. Os roletes de borracha ressecavam. A troca entre os “programas” acontecia no meio das músicas. E, acima de tudo, o 8-track não permitia gravação doméstica. Em 1975, o declínio já era evidente. Em 1988, as grandes gravadoras abandonaram de vez o formato.

A Fita Cassete – A Música no Bolso

Enquanto o 8-track dominava as estradas americanas, uma revolução silenciosa acontecia na Europa. Em 30 de agosto de 1963, na Exposição de Rádio de Berlim (o mesmo evento que havia apresentado o Magnetophon 28 anos antes), a empresa holandesa Philips apresentou a Compact Cassette – a fita cassete, ou K7 como a chamamos no Brasil.

O inventor foi Lou Ottens, engenheiro-chefe da divisão de áudio da Philips. Sua ideia era simples e genial: pegar a fita magnética, miniaturizá-la e protegê-la dentro de um estojo plástico. Não era preciso enfiar fitas em rolos. Era só inserir o cassete e apertar play. Inicialmente, a qualidade de som era adequada apenas para gravação de voz – como ditafones. Mas a tecnologia evoluiu rapidamente com as fitas de Óxido de Cromo (CrO₂) nos anos 1970.

O que tornou a cassete verdadeiramente revolucionária foi a capacidade de gravar. Pela primeira vez, qualquer pessoa podia gravar suas próprias fitas: compilações de músicas, recados, programas de rádio. As gravadoras entraram em pânico e fizeram campanhas como “Home Taping Is Killing Music” (Gravar em casa está matando a música). Mas o movimento era irreversível.

Em 1º de julho de 1979, a Sony lançou o Walkman TPS-L2, um tocador de fita cassete portátil. A música se tornou verdadeiramente nômade. Você podia ouvir seu álbum favorito caminhando, correndo, no ônibus. O Walkman vendeu mais de 400 milhões de unidades ao longo de sua história e transformou a fita cassete no formato dominante dos anos 1980.

Artistas como Pink Floyd (The Wall, 1979), Michael Jackson (Thriller, 1982, o álbum mais vendido da história, com mais de 70 milhões de cópias), Madonna, Prince (Purple Rain, 1984), U2, Queen e Dire Straits venderam dezenas de milhões de cópias em cassete.

A jornada da fita magnética é, em muitos sentidos, a jornada da própria música no século XX.

O Magnetophon nasceu na Alemanha nazista, foi capturado como espólio de guerra e, pelas mãos de um engenheiro visionário (Jack Mullin) e de um artista empreendedor (Bing Crosby), transformou para sempre a indústria fonográfica.

O cartucho 8-track foi o primeiro formato a colocar música de alta qualidade dentro dos carros, criando uma nova forma de consumir som – a trilha sonora da estrada. Foi um sucesso meteórico entre 1965 e 1975, com álbuns clássicos de Beatles, Pink Floyd e Elton John embalando uma geração. Mas seus problemas técnicos o condenaram a um declínio rápido.

A fita cassete, lançada em 1963, demorou para decolar, mas quando o fez – especialmente com o Walkman de 1979 – mudou para sempre nossa relação com a música. A música se tornou portátil, pessoal, gravável. A fita cassete preparou o terreno para a revolução digital que viria a seguir.

E a grande lição que fica é esta: por trás de cada formato que estudamos – do cilindro de cera ao MP3 – há uma história de inovação, de tentativa e erro, de artistas que abraçaram a tecnologia e de consumidores que mudaram seus hábitos. A tecnologia molda a música. E a música, por sua vez, molda a tecnologia.

Se as décadas de 1870 a 1950 foram a era do disco, as décadas de 1950 a 2000 foram, sem dúvida, a era da fita magnética. Uma tecnologia que, partindo de uma ideia simples – partículas de óxido de ferro sobre uma base plástica -, se ramificou de forma impressionante. Invadiu os estúdios de televisão, entrou nos lares com os videocassetes, coube nos bolsos com o Walkman, armazenou dados nos primeiros computadores e até viajou para o espaço interestelar a bordo das sondas Voyager. Hoje vamos percorrer essa história multifacetada, entendendo como uma única tecnologia pôde transformar tantos aspectos da vida moderna.

 

 


 

 

 

Do Estúdio ao Bolso

1935-1979

Fase Período Tecnologia Uso Principal Artistas e Álbuns Emblemáticos
O Início 1935-1945 Magnetophon K1/K4 (AEG/BASF) Rádio e uso militar na Alemanha Concerto da Sinfonia nº 39 de Mozart (LPO, 1936)
A Chegada aos EUA 1945-1948 Magnetophon + Ampex Model 200 Estúdios de rádio e gravação profissional Bing Crosby (primeiro programa gravado e editado em fita, outubro de 1947)
O Cartucho 8-Track 1965-1975 Lear Jet Stereo 8 (William Powell Lear) Automóveis (Ford 1966) e uso doméstico Rubber Soul (Beatles, 1965); Dark Side of the Moon (Pink Floyd, 1973); Goodbye Yellow Brick Road (Elton John, 1973)
A Fita Cassete 1963-1979 Compact Cassette (Philips) Portabilidade e gravação doméstica Consolidada com o Walkman da Sony (1979) e álbuns como The Wall (Pink Floyd) e Thriller (Michael Jackson)

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