Reinaldo Portanova F°

GRID: Manuais dos Equipamentos em atividade no estúdio, para edição, tratamento de áudio, limpeza de ruído, mixagem e finalização; digitalização, correção e exportação para diferentes mídias; conversão e restauração de arquivos analógicos para formatos digitais de alta qualidade. Textos desenvolvidos com uso da AI DeepSeek. Foram ilustrados revisados por humano.

National Panasonic RS-736: 3 cabeças que uniu precisão mecânica e versatilidade

O National Panasonic RS-736, muitas vezes chamado simplesmente de Tape Deck 736, é um gravador/reprodutor de fita de rolo (reel‑to‑reel) que mereceu o respeito de audiófilos e estúdios caseiros no início dos anos 70. A designação “Three Head” que a Panasonic estampava no painel não era apenas marketing: o deck possui cabeças independentes de apagamento, gravação e reprodução, algo que permitia monitoração em tempo real — ouvir exatamente o que está sendo gravado, sem depender do sinal de entrada. A seguir, um resumo deste clássico, com todas as suas particularidades e uma comparação com os outros membros da série 7xx.

 

PDF: Manual de Serviço e de Usuário [EN]

 

1. Ficha técnica completa – e explicada

      • Sistema de cabeças: três cabeças independentes — uma de apagamento, uma de gravação e uma de reprodução. Isso possibilita a monitoração ao vivo da gravação (off‑tape monitoring). As cabeças são de ferrite de alta permeabilidade, garantindo durabilidade e som limpo.
      • Motores: três motores — um motor AC síncrono de histerese para o capstan (garantia de rotação estável) e dois motores DC para os carretéis. Esse arranjo elimina correias no acionamento principal, reduzindo flutuações.
      • Pistas e canais: estéreo, 4 pistas, 2 canais. Compatível com rolos de até 7 polegadas (18 cm).
      • Velocidades: duas velocidades fixas, selecionáveis por chave — 7½ ips (19 cm/s) e 3¾ ips (9,5 cm/s).
      • Resposta de frequência (geral, com fita de boa qualidade):
        • 7½ ips: 30 Hz a 20.000 Hz (±3 dB)
        • 3¾ ips: 30 Hz a 14.000 Hz (±3 dB)

         

Números impressionantes para a época, indicando agudos estendidos e graves encorpados.

 

  • Relação sinal/ruído (sem redução de ruído): aproximadamente 55 dB — um chiado de fundo presente, mas natural e pouco intrusivo, graças à largura das trilhas do formato de rolo.
  • Flutuação de velocidade (Wow & Flutter): 0,10% WRMS a 7½ ips. Valor muito bom, significando notas de piano e cordas sustentadas praticamente imunes a oscilações.
  • Distorção harmônica total (THD): inferior a 1,2% (a 0 dB). Gravações fiéis, sem artefatos incômodos.
  • Alimentação: 110/220 V selecionável por chave traseira. Consumo em torno de 50 W.
  • Dimensões e peso: aproximadamente 450 × 380 × 230 mm (LxAxP) e cerca de 15 kg — construção robusta, gabinete em metal e madeira, com transformador interno de grande porte.

 

Por que essas especificações importam? Os três motores e as três cabeças são a garantia de um transporte suave e da capacidade de ajustar a gravação “ao vivo”, ouvindo a fita já gravada. A resposta de frequência até 20 kHz permite capturar todos os detalhes de um LP ou de uma transmissão FM de qualidade.

 

 

National Panasonic 736

2. Velocidades de gravação e reprodução: como alternar

 

O RS-736 oferece as duas velocidades padrão do formato doméstico/semiprofissional:

 

  • 7½ ips (19 cm/s): qualidade máxima. Um rolo de 1800 pés (7 polegadas) rende aproximadamente 45 minutos de gravação estéreo por lado (4 pistas).
  • 3¾ ips (9,5 cm/s): duração dupla, cerca de 90 minutos por lado, com uma perda suave de agudos que ainda é perfeitamente aceitável para música ambiente.

 

A troca de velocidade é feita por uma chave giratória no painel. Internamente, o deck comuta automaticamente os circuitos de equalização (EQ) para compensar a curva da fita em cada velocidade, mantendo o equilíbrio tonal.

 

 

3. Controles de áudio para gravação e fone

 

O painel frontal oferece controles generosos para a época:

 

  • Nível de gravação (Record Level): dois potenciômetros rotativos independentes (esquerdo e direito), permitindo gravações balanceadas mesmo com fontes assimétricas.
  • Medidores VU: dois grandes medidores analógicos de ponteiro com iluminação, calibrados em decibéis. Resposta agradável e precisa, com zona vermelha indicando risco de saturação.
  • Volume do fone (Headphones): potenciômetro dedicado no painel frontal, que controla a saída do conector de fone sem interferir nos níveis de gravação ou da saída de linha.
  • Chave Tape/Source: comutador que permite ouvir o sinal da fita (monitoração off‑tape) ou a fonte de entrada diretamente. Essencial para comparar a gravação em tempo real.

 

Além disso, há um controle de balanço para a reprodução, assegurando que a imagem estéreo fique centrada.

 

4. Conexões no painel frontal e lateral

 

Painel frontal:

  • Entradas de microfone (MIC): dois conectores P10 (6,3 mm) mono, um para o canal esquerdo e outro para o direito. Permitem gravar diretamente de microfones dinâmicos, mixando com outras fontes.
  • Saída de fone (PHONES): conector estéreo P2 (6,3 mm), com controle de volume dedicado.

Painel traseiro (conexões de linha e de sistema):

  • Entradas de linha RCA (AUX / LINE IN): para conectar gravadores, CD players, receivers ou mixers.
  • Entrada PHONO (RCA): exclusiva para toca‑discos com cápsula magnética, já com pré‑amplificador RIAA integrado. Isso significa que você pode ligar um prato diretamente ao RS‑736, sem precisar de um receiver externo.
  • Saída de linha (LINE OUT) RCA: para enviar o sinal a um amplificador ou sistema de som.
  • Terminal de aterramento (GND): para evitar zumbidos ao usar o toca‑discos.
  • Chave seletora de voltagem: 110 / 220 V.
  • Tomada de força auxiliar (unswitched): algumas versões traziam uma tomada fêmea para ligar outros equipamentos.

 

Destaque: a presença de entrada PHONO dedicada transforma o RS‑736 numa pequena central de áudio, capaz de gravar discos de vinil diretamente, sem equipamentos intermediários.

 

 

5. Possibilidade dos ‘inputs’: um centro de gravação completo

 

O RS-736 foi projetado para ser o coração de um sistema de gravação doméstico. A variedade de entradas impressiona:

  • Phono (magnetic): entrada RIAA equalizada para cápsulas magnéticas, com sensibilidade de 3 mV, exatamente o que um bom toca‑discos precisa.
  • Aux / Line In: nível de linha padrão (cerca de 100 mV), para conectar sintonizadores, CD players ou a saída de outro gravador.
  • Microfone (frontal): entrada de alta impedância para microfones dinâmicos, ótima para gravações ao vivo ou narrações.
  • Mixagem: os sinais de microfone e de linha podem ser usados simultaneamente, permitindo gravar voz sobre uma base musical (recurso de Sound‑on‑Sound, embora o RS‑736 não faça SOS propriamente dito, a mixagem ao vivo funciona).

 

Com essas opções, o usuário podia digitalizar LPs, gravar programas de rádio, fazer demos musicais e até sonorizar pequenos eventos usando o deck como mixer de 2 canais.

 

 

6. Sistema e filtros de redução de ruído

 

O RS-736 não possui sistemas embutidos de redução de ruído (Dolby, dbx ou ANRS). Na época de seu projeto, o formato de rolo apostava na própria largura da trilha e na velocidade de 7½ ips para manter o chiado em níveis aceitáveis. A relação sinal/ruído declarada de 55 dB é comparável à de um bom vinil, e muitos audiófilos consideram que a ausência de processamento preserva a dinâmica e o “ar” da gravação. Para reduzir o chiado, bastava usar fitas de baixo ruído (Low Noise / High Output) e manter os níveis de gravação próximos de 0 dB, evitando picos excessivos.

 

National Panasonic 736

 

7. Origem do Tape Reel‑to‑Reel NATIONAL PANASONIC 736

 

A linha National Panasonic pertence à Matsushita Electric Industrial Co., gigante japonesa fundada em 1918. Sob a marca Panasonic (e National, no Japão), a empresa fabricou uma extensa gama de equipamentos de áudio. O RS-736 foi projetado e montado no Japão, por volta de 1971-1972, como parte de uma série de gravadores de rolo que incluía os modelos RS-732, RS-734, RS-736 e RS-738. O nome “National Panasonic” aparecia com destaque nos produtos destinados a mercados internacionais, combinando o prestígio das duas submarcas.

No Brasil, o RS-736 chegou via importação oficial realizada por representantes autorizados. As unidades vinham preparadas para a rede 110/220 V, com manuais frequentemente em português ou espanhol. Por ser um produto importado e de alto custo na época, hoje é um item relativamente raro e valorizado entre colecionadores.

 

National Panasonic 736

8. Diferenças no manual de serviço conforme o país

 

Embora o projeto eletrônico e mecânico do RS-736 seja essencialmente o mesmo no mundo todo, os manuais de serviço variavam em alguns aspectos:

  • Transformador de força: diagramas separados para versões com transformador de 100 V (Japão), 117 V (EUA/Canadá) e multivoltagem (Europa/Ásia/América do Sul). Os esquemas de enrolamento e fusíveis são diferentes.
  • Nomenclatura dos conectores: no mercado japonês, os conectores RCA são identificados conforme o padrão JIS; nos EUA, com o padrão EIA.
  • Acessórios: o manual europeu frequentemente lista cabos de força intercambiáveis, enquanto o americano mostra o plug fixo.
  • Idioma: os manuais de serviço eram impressos em inglês, mas havia suplementos em alemão, francês e espanhol distribuídos pelas subsidiárias.

 

Na prática, qualquer técnico pode usar o manual internacional (em inglês) para reparar uma unidade brasileira, atentando apenas à configuração de voltagem correta.

 

 

9. Datas de lançamento, ano de fabricação e lançamento no Brasil

 

  • Lançamento mundial (RS-736): 1972. O deck apareceu em catálogos japoneses e europeus nesse ano.
  • Período de fabricação: 1972 até aproximadamente 1975-1976, quando a linha de rolos foi sendo gradualmente substituída pelos decks cassete de alta qualidade.
  • Lançamento no Brasil: estima-se que as primeiras unidades tenham chegado por importadoras entre 1973 e 1974, com anúncios em revistas do setor como “Som & Imagem” e “Eletrônica Popular”.

 

10. Valor de mercado atual

 

O RS-736 é um reel‑to‑reel colecionável, com preços que refletem seu estado de conservação e a raridade no Brasil:

  • Unidade para restauro: R$ 1.000 a R$ 1.500 (cabeças com desgaste, correias a trocar, potenciômetros ruidosos).
  • Unidade funcional, não revisada: R$ 1.800 a R$ 2.500.
  • Unidade totalmente revisada (cabeças em ótimo estado, calibração de bias e azimuth feitas): R$ 3.000 a R$ 4.000.
  • Unidade impecável, com manual e caixa originais: pode ultrapassar R$ 5.000, especialmente se for a versão com acabamento em madeira nobre.

 

Verifique sempre o estado das três cabeças (um sulco profundo indica desgaste), o funcionamento suave dos três motores e a presença de todas as peças do sistema de transporte.

 

 


 

 

Tabela comparativa: a série RS-7xx da Panasonic

 

O RS-736 pertencia a uma família de gravadores de rolo com diferentes níveis de recursos. As principais diferenças estão resumidas abaixo:

Modelo Cabeças Motores Auto‑reverse Velocidades Entradas notáveis Diferencial
RS-732 2 (apag., gravação/reprodução) 1 motor AC Não 3¾ e 7½ ips Line, Mic Modelo de entrada, muito simples
RS-734 2 (ferrite) 2 motores Não 3¾ e 7½ ips Line, Phono, Mic Bom custo‑benefício, entradas versáteis
RS-736 3 (ferrite) 3 motores Playback reverso (opcional?)* 3¾ e 7½ ips Line, Phono, Mic, Phones Monitoração em tempo real, 3 motores
RS-738 3 (ferrite) 3 motores Gravação e reprodução reversa automática 3¾ e 7½ ips Line, Phono, Mic, Phones Auto‑reverse completo, ideal para longas audições

 

 

* Algumas versões do RS-736 ofereciam a possibilidade de rebobinar e tocar o lado B sem inverter o rolo, mas não um auto‑reverse eletrônico como o do RS-738.

 

 

O RS-736 ocupa um lugar especial nessa escada: é o primeiro modelo da série a trazer três cabeças verdadeiras e três motores, oferecendo a qualidade de monitoração de estúdio em um formato doméstico. Para quem busca o charme do rolo com recursos sérios de gravação, ele continua sendo uma referência até hoje.

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